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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Língua

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixa os Portugais morrerem à míngua
"Minha pátria é minha língua"
Fala Mangueira! Fala!

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmen Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E - xeque-mate! - explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé


Flor de Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?


Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
( - Será que ele está no Pão de Açúcar?
- Tá craude brô
- Você e tu
- Lhe amo
- Qué queu te faço, nego?
- Bote ligero!
- Ma' de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado!
- Ó Tavinho, põe esta camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho!
- I like to spend some time in Mozambique
- Arigatô, arigatô!)
Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixe que digam, que pensem, que falem


22/09/2003

* In Letra Só, selecção, organização e prefácio de Eucanaã Ferraz (edições Quasi, Lisboa), incluído no disco "Mundos no Mundo".

** Músico e letrista brasileiro. Nasceu em Santo Amaro da Purificação, Bahia, a 7 de Agosto de 1942. Da sua obra, destacam-se os discos: "Domingo" (1967), "Tropicália" (1969), "Barra 69 - Caetano e Gil ao vivo" (1969), "Caetano e Chico juntos ao vivo" (1972), "Circulado" (1991), "Noites do Norte" (2000), "Eu não peço desculpa" (2002), etc.

Ciberduvidas - 22/09/2003

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A maior cidade portuguesa é o Rio

Autor brasileiro Carlos Lessa defende tese na obra "Os Lusíadas na aventura do Rio moderno"

O Rio de Janeiro é a maior cidade portuguesa no Mundo. Esta tese é defendida pelo professor brasileiro Carlos Lessa, que acaba de lançar a colectânea "Os Lusíadas na aventura do Rio moderno", um conjunto de 14 ensaios de vários autores sobre as marcas portuguesas no Rio de Janeiro.

Carlos Lessa, economista e recém-eleito reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, diz, em entrevista ao jornal brasileiro "Valor Econômico", que a herança portuguesa na cidade é maior do que se supõe.

Segundo ele, as marcas lusitanas no Rio vão muito além dos tempos coloniais. Podem ser encontradas na arquitectura, na comida, nos costumes e até nas claques de futebol _ há dois clubes lusos na cidade, o Vasco da Gama e a Portuguesa.

Para o autor, o Rio de Janeiro é "a maior cidade portuguesa no Mundo", referindo-se ao facto de não haver nenhuma outra no mundo lusófono com população tão grande, mais de 7,5 milhões.

imigrantes humildes

Lessa sustenta que a influência portuguesa encontra-se também na formação do operariado e do empresariado carioca, nas profissões liberais, nas organizações sociais, na música, literatura e no teatro.

"Pelo lado físico, encontramos bairros inteiros portugueses, ruas, vielas, edificações", observa o economista. "Mas, se olharmos o aspecto demográfico, o resultado é muito mais impressionante", acrescenta.

Segundo ele, em 1890, um ano após a proclamação da República do Brasil, os portugueses representavam 106 mil dos 520 mil habitantes da cidade, e 161 mil eram filhos de portugueses.
Para o autor, o português também é responsável pela mestiçagem no Rio de Janeiro. Lessa concorda com a tese do "lusotropicalismo" do sociólogo Gilberto Freyre. Contudo, considera que a mestiçagem ocorreu mais no século XX do que no XIX, em razão da escassez de
mulheres brancas.

"A grande maioria dos imigrantes era de portugueses humildes, que foram para o Rio na mesma época em que uma massa de italianos foi para São Paulo", diz ele.

"Durante o decadente século XIX português, eles vieram predominantemente para o Rio" e disputavam empregoS menores, diz Carlos Lessa. "O fluxo manteve-se até pelo menos 1950".
Entre 1890 e 1920, segundo ele, dos 24 líderes sindicais do país 24 eram italianos e 23 eram portugueses. Dos 556 operários expulsos do país entre 1907 e 1921, época das primeiras grandes greves, 181 eram portugueses, 121 italianos e 113 espanhóis.

Lessa acredita que, após a República, os brasileiros quiseram libertar-se da origem portuguesa, na época um país atrasado, e adoptaram a França como paradigma.

Jornal de Notícias, 2002

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Não se perca pela língua

Auscutador: fone de ouvido
Autocarro: ônibus urbano
Autoclismo: descarga de privada
Banhada: "roubada"
Bica: café
Bicha: fila. "Pegar o rabo da bicha" é entrar no fim da fila.
Bifana: bife pequeno de carne de porco
Boléia: carona
Borracho: rapaz bonito ("fulano é um borracho", "tu és cá um borracho")
Caminhonete: ônibus interurbano
Carioca: cafezinho com leite
Casa de banho: toalete Ficheiro: arquivo
Comboio: trem
Dar uma passa: dar um "tapa" ou "pega"
Durex: camisinha
Eléctrico: bonde
Ementa: cardápio
Engate: paquera (um "sítio de engate"
é um lugar de paquera)
Erva (ou marijuana): maconha
Esferobita: isopor
Fato macaco: macacão
Flipar: pirar
Fufa: lésbica (pejorativo)
Galão: café com leite no copo
Gamba: camarão
Gelada: sorvete
Giro(a): coisa ou pessoa muito legal
Imperial: chope
Lixívia: sabão em pó
Maluca: "galinha"
Metro: metrô
Miúda: garota
Pastilha elástica: chiclete
Pequeno almoço: café da manhã
Picha: pênis
Pirosa: brega
Queca: trepada ("Aquela ali, dei-lhe uma queca")
Rabo: bumbum
Rata: xoxota
Rato: mouse
Sanita: privada
Sítio: lugar
Slip: cueca
Telemóvel: telefone celular
Vir: gozar ("estou a vir, vem, vem")

Revista Playboy - edição brasileira - Copyright © 1998, Abril S.A.
Abril Online

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Lusitol e Brasitol

Entre Portugal e o Brasil tudo nos liga nada nos separa. A não ser a língua (e já agora os dentes). É um fosso abissal, e para prová-lo Mauro Villar escreveu o "Dicionário Contrastivo Luso-Brasileiro" com mais de 12 mil verbetes. De posse destes dados, Millôr Fernandes construiu dois textos em "lusitol" e depois traduziu o mesmo para "brasilol". É o que se segue:

"Estava a conduzir meu automóvel numa azinhaga com um borracho muito giro ao lado, quando dei com uma bossa na estrada de circunvalação que um bera teve a lata de deixar. Escapei de me espalhar à justa. Em havendo um bufete à frente convidei a chavala a um copo. Botei o chiante na berma e ordenamos ao criado de mesa, uma sande de fiambre em carcaça eu, e ela um miau. O panasqueiro, com jeito de marialva paneleiro, um chalado da pinha, embora nos tratando nas palminhas, trouxe-nos a sande com a carcaça esturrada (e sem caganitas!), e, faltando-lhe o miau, deu-nos um prego duro."

Agora em "brasilol": "Eu dirigia meu carro por um caminho de pedras tendo ao lado uma gata espetacular, quando vi um lombo na estrada de contorno que um escrote teve o descaramento de fazer. Por pouco não bati. Como havia em frente uma lanchonete, convidei a mina a tomar um drinque. Coloquei o carro ao acostamento e pedimos ao garçon sanduíche de presunto com pão de forma, eu, e ela sanduíche de lombinho. O gozador, com jeito de don Juan bicha, muito louco, embora nos tratando muito bem, trouxe o sanduíche com pão queimado (e sem azeitonas!) e não tendo sanduíche de lombinho, trouxe um churrasquinho duro."

Duda Guennes, Jornal A Bola, 22/08/1998

Duda Guennes é um jornalista brasileiro residente em Portugal

retirado do Ciberduvidas, 25/08/1998

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Esta lingua bendita

Que diferença há entre o português falado em Portugal e o português falado no Brasil? E até que ponto os portugueses adoptaram já termos que nada lhes dizem?

O espanhol sul-americano e o português do Brasil vão acabar fundidos num só idioma, «uma espécie de portunhol», afirmou recentemente à revista brasileira «Veja» o linguista americano Steven R. Fischer. Levará trezentos anos, mas o desenlace já é, segundo ele, inelutável. Aí está uma notícia impressionante, faltando só saber se ela fará hoje alguém feliz. Demais, ninguém dos vivos estará cá para verificá-lo. Será caso, portanto, de pormos a fé no cientista? Apeteceria fazê-lo, já que a linguística é uma ciência das mais sérias. Depois, à primeira vista, o raciocínio colhe. «O Brasil está cercado de países que falam espanhol. À medida que as trocas comerciais e os contactos aumentarem, haverá mais pressão.» Certo. E, todavia, Fischer pode bem enganar-se. Há mesmo razões para supor que alguma grande ilusão o vitimou. As influências entre as línguas seguem caminhos muito pouco lineares, com processos complexos e mesmo inversões de marcha. Um exemplo recente e aparatoso de tão incertos caminhos é o das interferências do português brasileiro na variante europeia. A julgar pela leitura dos jornais portugueses actuais, essa transfusão entrou em nítido refluxo. Felizmente? Infelizmente? Risque você mesmo a alternativa inadequada.

Tratava-se de um fenómeno, importa dizê-lo, com tanto de inesperado como de curioso. Seria mesmo uma regalia podermos assistir no tempo da nossa vida - um tempo sempre linguisticamente curto - a uma reformulação do nosso próprio idioma. Há vinte anos, tudo parecia indicar que as modalidades brasileiras, infiltradas pelas telenovelas, iam assentando arraiais na nossa escrita e na nossa fala, prevendo-se-lhes um grande futuro. Ao fim e ao cabo, havia já então milhares de crianças que, pela tarde fora, sozinhas em casa, à espera de pais exaustos, e depois durante o jantar e o serão, arrecadavam nos ouvidos mais brasileiro do que português. A receptiva e sensível alma infantil não esqueceria jamais esse investimento afectivo que, através de boas histórias e magníficos actores, as novelas lhe traziam. Afinal, as mais bonitas palavras ouviam-nas os miúdos não em português mas em brasileiro. Era, portanto, uma questão de tempo. Os processos psicológicos fariam o resto.

Ora, basta seguir hoje com atenção conversas de adolescentes, nos recreios das escolas ou nos transportes públicos, para verificar que, dessas horas de abandono e emoção passadas em frente do televisor, só residualmente algo passou à linguagem activa. Umas achegas ao léxico, uma fugidia inflexão na sintaxe, e os malfadados «Tudo bem?» e «Veja só!»... Na nossa pronúncia, nada até hoje se modificou, ou será só o caso desse número assustador de portugueses que, em meia dúzia de anos, passou a pronunciar «chegámos ontem» do mesmo modo que «chegamos ontem». Mas alguns modismos brasileiros entraram para ficar. É possivelmente o caso da fórmula interrogativa «Será que...?» (só a conhecíamos com a adversativa «Ou será que...?, e, criativos que somos, formámos depois a variante «Seria que...?», para o passado), o caso de sequências como «tão simpático quanto ela» (anteriormente de uso condicionado, por exemplo em «tão confortável quanto caro»), da construção adverbial «só que», de giros do tipo «estar numa de...», «chamar de...», «falou que...», ou ainda de locuções do género «até que ele tem razão» (em vez de «ele até tem razão») ou «só mesmo na Baixa». A absorção brasileira conduz ainda, aqui e ali, a formulações híbridas, como «em tudo quanto é sítio», ou (ouvida num autocarro) «deu imenso para a malta curtir», ou (no disco «FMI», de José Mário Branco) «estamos numa porreira», que são já meio português meio brasileiro. Pode, no entanto, asseverar-se que o falante médio não tem qualquer noção da procedência estrangeira da maioria desses ditos. E já lá vai o tempo em que portugueses sensíveis se desculpavam com um tímido «como dizem os brasileiros».

Mas podemos estar tranquilos. Casos graves, como um «vou avisar ele», reportado pela televisiva Edite Estrela, mantêm-se isolados. O edifício do nosso português, do mais culto ao mais ordinário, continua miraculosamente sólido. Uma frase como: «Vi a gaja com um puto na bicha do eléctrico», corrente para nós mas puro código para um brasileiro (bem, por esta vez: «Vi a sujeita com um guri na fila do bonde»), está de pedra e cal. Os tempos já foram, todavia, bem outros. Há quinze, vinte anos, era habitual dar em contextos mais prestigiados, como peças de jornal, com construções estranhas ao nosso padrão e irrecusavelmente brasileiras. Atracção da novidade, sedução pelo «estrangeiro», exibicionismo, rompimento com as normas, habituação do público - algum destes factores, ou todos eles juntos, respondiam pelas ocorrências.

Um exemplo simples. Em Abril de 1981, uma reportagem do «Expresso» sobre a tarefa quotidiana da polícia fazia um agente dizer: «Ela é livre, não pode obrigá-la a viver consigo.» Ao que um moço respondia: «Mas a gente se gosta. Ela estava namorando à minha frente com outro cara. À minha frente não consinto. Eu só queria bater um papo numa boa, para ela voltar comigo.» O rapaz era brasileiro, claro. Mas o que pode ter-se por certo é que, uns anos antes, o jornalista teria feito vasto uso de aspas, se é que transpunha, ou sequer valorizava, uma fala tão peregrina. A tolerância fizera-se, portanto, grande. Tinham-se, por então, tornado vulgares em textos de imprensa, e na maior das inocências, locuções como: «Desalojado, não dá para comemorar» (título do «Diário de Lisboa»); «Entrou numa de compromisso» («Jornal de Letras»); «Estudo que fiz antes do 25 de Abril, a censura cortou» («DL»); «Era efectivamente um relógio. Até que de boa marca» («Expresso»); «Pirata, eu? Cadê os outros?» («JL»). Em todos estes casos - e são exemplos de entre centenas -, o contexto era irrepreensivelmente português.

Os factos tomaram dimensão mais séria quando uma sintaxe que se supunha inviolável deu em abrir brechas. Se alguma coisa nos distinguia dos brasileiros era, pensávamos, a colocação do pronome pessoal átono, obediente entre nós a rijas normas. Pois bem, os jornais portugueses perderam a cabeça. Liam-se frases (garantimos a lusitanidade de jornalistas ou entrevistados) como: «Assim falou-nos o brasileiro Douglas, médio sportinguista» («Correio da Manhã»); «O objectivo é (...) treinar pessoas que já falam o nosso idioma a se expressarem em situações concretas. (...) Trata-se de uma tendência que inevitavelmente irá se acentuar» («Expresso»); «Quando mais tarde Chaplin propôs-lhe o divórcio, ela suspira (...). Não me lembro de quantos anos ela tinha, mas se podia contá-los nos dedos das mãos e dos pés» («O Independente»). Um «cartoon» de «O Jornal» grafava: «Se não sabe se comportar à mesa dos grandes...». Uma cronista do «Diário de Notícias» abria com: «Bem, eu nunca sei o que mais irá me acontecer.» O maior assombro vinha, contudo, num subtítulo do «Expresso», de Outubro de 1979: «Se ultrapassaram os limites da correcção democrática». No corpo do artigo lia-se, evidentemente, «acho que se ultrapassaram». Mas o lapso mostrava quanto os olhos e os ouvidos lusitanos iam ficando embotados.

Hoje em dia, as coisas estão mais calmas. Os giros frásicos brasileiros assediam menos frequentemente os teclados portugueses. Pode, em «O Independente», aparecer ainda a legenda: «Guterres vai se ver pouco nas televisões»; ou ler-se, num recentíssimo «Público»: «Agora já dá para rir com a situação.» Tornaram-se casos raros. A velha gramaticalidade retomou a sua eficácia, ou foram os «copydesks» que decidiram ser menos tolerantes. Para quem sonhava com uma reaproximação das duas grandes variantes da língua portuguesa, os tempos voltaram a tornar-se difíceis. A deriva prossegue, menos espectacular do que pudessem desejar os que prezam sobretudo «as nossas coisas», mas mesmo assim imparável.

Para os brasileiros que se arrepiam à ideia de um dia vir a falar-se «portunhol» no seu país, tudo isto é uma boa notícia. Os idiomas são construções bem mais resistentes do que a futurologia linguística nos faria supor. Mesmo uma transfusão em massa de elementos lexicais não aproxima significativamente as línguas. Facilita a compreensão, é tudo. Mas a estrutura que distingue os idiomas, a sintaxe, tem uma teimosia que só permite previsões muito modestas. A questão sobre se brasileiros e portugueses escrevem o mesmo idioma é ociosa. Claro que escrevem. A outra questão, sobre se a língua que falam é a mesma, continuará em aberto, ao sabor das emoções de quem pensa no caso. Uma coisa parece certa: as cinquenta horas semanais de telenovelas brasileiras não mexem grandemente com o nosso português. Divertem, educam talvez. Mas não se lhes peça mais.

Fernando Venâncio, Expresso, 21/04/2000

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Coisas estranhas na língua

A língua portuguesa tem as suas esquisitices. A palavra veementemente, por exemplo, é uma das mais estranhas e chatas de pronunciar. É daquelas que não saem do rame-rame, que ficam a tropeçar nas sílabas. Um ingênuo pode até imaginar que é usada para indicar quem mentiu duas vezes ú só isso explicaria o "mentemente". Nada disso. Serve apenas para os advogados usarem nos tribunais:

- Protesto veementemente, meritíssimo.

Aliás, meritíssimo é outra palavra intrigante, pois pronunciada rapidamente tem o som muito parecido com meretrício. Temos aqui uma irônica coincidência. Afinal, o juiz Lalau e outros da mesma laia não transformaram o Poder Judiciário numa autêntica zona?

Faz tempo que não ouço falar em meretrizes ou zonas do meretrício. É que a maioria das pessoas prefere usar prostituta, um termo bem mais popular. Outra palavra errada, claro. O certo deveria ser prostiputa. Era mais lógico. Os anarcas-pichadores teriam uma nova frase para as paredes:

- Prostiputas ao poder já, porque os filhos estão lá.

Não sei se daria uma dignidade à coisa, mas pelo menos seria mais sonoro. Engraçado que no português de Portugal puta também é puta, como no Brasil, mas no masculino é diferente: puto é moleque.

- Olha, lá vai o puto a correr.

É chato tratar uma criança assim. Aliás, as crianças são muito intuitivas no tratamento da língua e muitas vezes têm razão. A minha filha, por exemplo, quando era criança insistia em dizer:

- Cê tá mentirando.

Faz sentido. Contar uma mentira devia ser "mentirar". Os lingüistas é que complicaram tudo, porque o verbo "mentir" é antinatural. A propósito, o prefixo anti é uma autêntica dor-de-cabeça. Ou haverá palavra mais estranha do que antiinflação, com os dois "i" juntos? Aliás, só no Brasil, porque em Portugal é separado. É o tal desacordo ortográfico.

Até parece que falamos a mesma língua, mas é difícil quando se transita de um país para o outro. O pior, no meu caso, é entender as tais próclises, mesóclises ou ênclises. Ainda não atinei com a coisa. Mas um amigo brasileiro que trabalha na publicidade lusitana tem a solução:

- Como é que se diz? "O carro se atolou" ou "o carro atolou-se"?

- Não sei. Para mim é tudo igual.

- É assim: se for com as duas rodas da frente é "se atolou", mas se for com as duas de trás é "atolou-se".

- E se for com as quatro rodas?

- Hummm... nesse caso é "se atolou-se".

É como diz o velho deitado: "Pesporrente, o jovem grulhento usou a antracomancia para esquadrinhar a elanguescência genesíaca das globulariáceas".

José António Baço - Professor e publicitário (em Truca)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Bocetas de Marmelada

Suspeito que há mais diferenças entre o português falado no Rio de Janeiro e aquele utilizado em Pernambuco, do que entre o português dos cariocas e o dos alfacinhas.

No Brasil nenhum jornal me deixaria utilizar a expressão acima como título de uma crónica. Em muitas aldeias portuguesas, porém, é vulgar encontrar este anúncio à porta de pequenas mercearias. "Boceta" entre os portugueses manteve o seu sentido original, caixinha, enquanto no Brasil ganhou por explícita analogia um significado novo, perdendo-se a memória do anterior. O dicionário Aurélio regista em primeiro lugar a palavra no sentido português, utilizando como exemplo uma frase de Fialho de Almeida em "Lisboa Galante": "Bocetas atochadas de pastilhas e docinhos perfumados." Para um brasileiro, a mesma frase recorda inevitavelmente (e com escândalo) cenas de certos filmes eróticos, como "Nove Semanas e Meia", que tentaram levar, com escasso sucesso, a cama para a cozinha.

Situações deste tipo geram, é claro, inúmeros equívocos e levam a que volta e meia surjam na imprensa artigos alertando para o afastamento entre o português que se fala no Brasil e em Portugal. Os portugueses falam disto com alarme, talvez com disfarçada mágoa, enquanto no Brasil a mesma ideia é por vezes defendida com propósitos de falaciosa exaltação nacionalista, "no Brasil não se fala português, fala-se brasileiro".

Será mesmo assim? Em primeiro lugar, teríamos que chegar a um acordo sobre a variante do português brasileiro que queremos comparar com o português falado em Portugal. No que diz respeito apenas ao vocabulário, suspeito que há mais diferenças entre o português falado no Rio de Janeiro e aquele utilizado em Pernambuco, do que entre o português dos cariocas e o dos alfacinhas. Nos últimos anos, aliás, têm surgido diversos dicionários de termos nordestinos (para uso de cariocas e paulistas), dos quais o melhor e mais divertido é sem dúvida "Assim Falava Lampião", de Fred Navarro. Na apresentação do livro, o compositor António Nóbrega exalta "os velhos fazedores de língua e cultura brasileiras (...) os emboladores (cantores populares), raizeiros (ervanários), brincantes de várias espécies que desarrumando, despedaçando os padrões habituais da língua, criam outra mais rica, ampliada e mais uníssona com a nossa alma colectiva".

Tudo isto é verdade. Curiosamente, porém, alguns dos termos que mais marcam a fala nordestina, e que merecem destaque no livro de Navarro, são profundamente portugueses. Trata-se de palavras ou expressões que foram esquecidas em Portugal mas que permaneceram vivas do outro lado do mar. É o caso, por exemplo, de "aperrear" (aborrecer). Em qualquer novela brasileira, não há personagem nordestino que não encha a boca com este feio verbo e seus derivados. "Aperrear" significava na origem perseguir com perros, cães, sendo fácil compreender a sua evolução semântica. Arretado (bom, gostoso) é outra expressão que muita gente julga ter nascido no Nordeste - "eta, forró arretado!" - e que no entanto descende em linha directa do latim "arrectare", levantar, erguer, com óbvia conotação sexual. Lembro-me ainda do verbo "mangar", que a minha avó, natural de Ílhavo, utilizava frequentemente com o sentido de fazer troça, e que me foi apresentado no Recife, com o mesmo sentido, como um inequívoco regionalismo.

Nesta incessante troca de palavras de que se fazem as malhas da lusofonia, vale a pena referir ainda o termo "machimbombo" (autocarro), que angolanos e moçambicanos julgam ser de origem africana. Duvido. Machimbombo era uma palavra muito comum no Brasil até finais do século XIX, acreditando-se que possa ter resultado de uma expressão americana com que na mesma época era uso designar os novos e ruidosos veículos a motor "machine-boom-boom".

Conheci em Brasília, há alguns meses, um estudante angolano que escreveu um livro contando os equívocos em que se viu envolvido enquanto não foi capaz de dominar por completo as subtilezas das diversas variantes da nossa língua. Conta ele que um dia, sentindo frio, entrou numa loja para comprar uma camisola. O vendedor estranhou:

- É para a sua esposa?

O estudante, ignorando que no Brasil a palavra camisola tem o sentido de camisa de dormir, insistiu:

- Não, não senhor, é mesmo para mim.

O vendedor piscou o olho para o colega:

- Este é um entendido...

Queria dizer um homossexual. O meu amigo aborreceu-se:

- Entendido? Ao contrário, pouco entendo de camisolas, mas estou com frio. Pode ser aquela castanha que está na montra.

- Na montra?!

Finalmente fez-se luz no espírito do vendedor:

- O que você quer é o "suéter marrom" que está na vitrine. Porque não se explicou logo em bom português?

Quanto a mim, não há porque recear. O que estes equívocos demonstram é que para colonizar diferentes ecossistemas, como qualquer outro ser vivo, a língua portuguesa teve de se adaptar, criou variedades, e com isso tornou-se mais flexível e resistente. É bom saber, por outro lado, que se uma palavra se perdeu em Portugal, ela pode talvez ser encontrada, viva e de boa saúde, numa roda de peões em Mato Grosso, num jogo de meninos em Luanda, ou na letra de uma morna em São Vicente.

José Eduardo Agualusa, Público, 24/04/2000