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quinta-feira, 12 de maio de 2011

Querónica

Não estranhem este título; o que se segue é uma crónica como outra qualquer, embora sobre um assunto novo (espero que apreciem este esforço). Chamo-lhe querónica para assinalar que a ortografia aqui utilizada para várias palavras nem sempre é a que julgo preferível, e é muitas vezes uma grafia com a qual ninguém, suponho, estará de acordo.

Tudo começou quando, em plena segunda metade do século XX, fui deixando de ver a palavra Amsterdão, para cada vez mais ver Amesterdão. Ainda hoje não percebi quem introduziu aquele e. Eu tinha visto Amsterdão em mapas, tinha-a lido assim em textos de autores bem diferentes, mas todos cultores do bom português, de António José Saraiva a José Rentes de Carvalho, passando por Fernando Venâncio (que, além de usarem a palavra, conheceram a cidade e a origem do topónimo). Tinha-a visto nas primeiras edições em volume do Tratado de Amsterdão. De repente, outras edições do tratado passaram para Amesterdão. Mas mantêm Maastricht...

Quem serão os tratantes? Se calhar, alguém achou que aquelas duas consoantes seguidas fugiam ao aspecto «normal» da língua, e os parvos dos portugueses não conseguiam ler a palavra. Recordo que a 17/2/2001 J. Rentes de Carvalho me enviou um e-mail (só agora lhe agradeço) dizendo a certa altura: «(...) também eu aceito os aportuguesamentos seculares de Londres, Genebra e Terra Nova, etc.... mas tenho certa dificuldade com o aportuguesamento de Amsterdam e Rotterdam. Os nomes destas cidades derivam dos rios que junto delas passam (o Amstel e o Rotter), com o acrescento de 'dam' - o dique sobre que foram construídas.» Acrescentava que «dam» se pronuncia mais ou menos como «dame» e lembrava que não usamos Zandão nem Volendão (para Zaandam e Volendam), que «teriam tanto de bizarro como o Oclaoma e o Cansas que V. refere.»

Mais remotamente, lembro-me de ver «Afganistão» em mapas e livros. Hoje só vemos «Afeganistão», também com um ezinho para ajudar a soletrar a estranha palavra. Nestes fenómenos, estamos mais uma vez orgulhosamente (ou parvamente?) sós. Os espanhóis escrevem Amsterdam, tal como os franceses, os italianos, os ingleses e os alemães (entre outros, como os próprios holandeses). Os espanhóis escrevem Afganistán, os franceses, italianos e ingleses Afghanistan. As línguas latinas mais próximas dispensaram o e, e o mesmo fizeram com Amster(dam), que vem de Amstel e não de Amestel. Afghan (?) será de origem persa («(...)a palavra entrou em português por via fr. ou ingl., que a teriam recebido do persa, afgany» (José Pedro Machado, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa). Mas o desprezo pela etimologia, e o cepticismo quanto às capacidades dos leitores, levaram alguns à adopção de formas com o tal ezinho. Assim talvez nos reste, para haver maior coerência (ou mais algumas incoerências), propor outras remodelações ortográficas, ou melhor, ortugueráficas.

Não vale a pena ficarem afelitos nem perpelexos, e muito menos apopelécticos. Não se sintam menos flizes por isso. Porquê escrever afta, aftosa, naftalina, abstinência, aplicação, magma, Magda, inflexão, inflação, deflagrar, admissão, plágio, plasma, placebo, portfólio, sintagma, tecla, se podem escrever áfeta, afetosa, nafetalina, abestinência, apelicação, máguema, Mágueda (não existe Águeda?), infelexão, infelação, defelagrar, ademissão, pelágio, pelasma, pelacebo, portefólio, sintáguema, téquela? Não fiquem indiguenados com estas propostas. Entenderão alguns que uma querónica destas é pouco pdagógica, talvez até dmagógica, ou que conduz ao abessurdo. Mas eu, que não sou téquenico destas coisas (só de ideias gerais, como é próprio do jornalista), não me sinto desquelassificado por enunciá-las. Não ademito é que só em Portugal se saiba como escrever Amsterdão e Afganistão, dando mais uma vez lições ao mundo, tendo ou não feito com aperuveitamento a vetusta quarta quelasse. Os cidadãos não devem abester-se de refelectir sobre estas questões, apesar da compelexidade delas. E não devem ter compelexos quando as infeligirem a quem nem pensara no assunto. Se o infeluxo do inguelês afecta hoje os discursos correntes, devemos reagir com um português verenáculo («a nossa máguena língua portuguesa», como passaremos a escrever). Que raio de querónica - já vos estou a ouvir. Espero que meditem uns segundos sobre ela, agora que resolvi o perubelema da página em beranco, e muito me ademirará se a não zurzirem, em nome da sonoridade e da legibilidade. Pelize, como diria um inguelês. Não devemos ser compelacentes nem felexíveis perante abusos não autorizados. De fáqueto, a linguística é demasiado séria para ser confiada aos não linguistas, mas a invenção não foi ainda pruibida ou peruibida. Não é isso o perugueresso? Não dizem alguns que a escrita é apenas ou sobretudo a epiderme da língua, a sua vestimenta? Quanto à origem das palavras, quem é que sabe disso, ou quer saber disso para alguma coisa? Por mim, estou já inquelinado a aceitar mudanças derásticas. Agradecia era que os linguistas nos expelicassem os critérios das mudanças, porque isto é muito compelicado.

Francisco Bélard, Expresso, 26/01/2002

«Se o infeluxo do inguelês afecta hoje os discursos correntes, devemos reagir com um português verenáculo ('a nossa máguena língua portuguesa', como passaremos a escrever). Que raio de querónica - já vos estou a ouvir. Espero que meditem uns segundos sobre ela, agora que resolvi o perubelema da página em beranco, e muito me ademirará se a não zurzirem, em nome da sonoridade e da legibilidade. Pelize, como diria um inguelês. Não devemos ser compelacentes nem felexíveis perante abusos não autorizados.»

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Qwert

O leitor por certo já terá reparado que os teclados dos computadores têm as letras dispostas de uma maneira estranha. É o que antigamente se chamava teclado internacional e que começa com as letras «qwert», de onde recebe o seu nome. Há alguns anos, quando se utilizavam máquinas de escrever, o comprador podia escolher entre vários sistemas de teclado, mas sobretudo entre este «qwert», uma variante francesa «azert» e aquilo a que se chamava o teclado nacional, ou «hcesar».

Há algumas décadas, ao que se conta, as máquinas de escrever «qwert» estavam proibidas no nosso país, tal como o estava a Coca-Cola e muitos livros. Diz-se que Salazar queria ter o controlo sobre as máquinas vendidas e por isso não permitia o teclado internacional. Será verdade? Não seria uma proibição que destoasse do estilo de governo da época, mas nunca o consegui confirmar.

De uma maneira ou de outra, a disposição das letras é muito estranha. Poder-se-á pensar que os que a conceberam fizeram estudos até chegarem a um teclado optimizado, que permitisse escrever de forma mais cómoda. De certa forma fizeram-no, mas ao contrário do que se pode à primeira vista pensar. As primeiras máquinas de escrever tinham formas curiosas para escolher as letras. Umas tinham um dispositivo circular, que se rodava até obter a letra escolhida, pressionando-se então uma alavanca. Outras tinham as letras numa fileira longa, tal como um piano. Só mais tarde, em 1870, o norte-americano Charles Latham Scholes concebeu o teclado com a disposição actual. Aí se encontrava já a disposição de letras em três fileiras, seguindo a ordem QWERT na primeira linha.

Porque é que Scholes evitou a ordem alfabética? Porque queria resolver um problema mecânico das primeiras máquinas de teclado. Nessa altura, o utilizador encravava frequentemente as teclas quando as digitava muito rapidamente, pressionando duas quase em simultâneo. Por isso, Scholes colocou as letras mais frequentes, tais como o «E» e o «I», em pontos opostos. Outros teclados, nomeadamente os das máquinas de linotipia, não seguiram esse modelo. Tinham a sigla «SCHRDLU», seguindo a ordem aproximada da frequência das letras na língua inglesa. Essas máquinas, ainda há poucos anos muito frequentes nos jornais e nas tipografias, possuíam um teclado com a ordem copiada da das antigas gavetas de composição manual, que estavam também organizadas pela ordem de uso dos caracteres.

Os primeiros dactilógrafos usavam um ou dois dedos em cada mão, tal como os linotipistas ainda recentemente o faziam. Pouco depois da difusão do teclado QWERT, o norte-americano Frank McGurrin resolveu memorizar o teclado e utilizar todos os dedos. Depois de ter ganho um concurso de rapidez dactilográfica em 1877, o seu método espalhou-se por todo o mundo.

Na segunda metade do século XX surgiram as máquinas de escrever eléctricas e, depois, os computadores. O problema das letras encravadas deixou de existir. Porque é que subsiste ainda o QWERT? Uma razão é, naturalmente, a inércia. Mas há motivos mais importantes. Durante muitos anos, os técnicos e os psicólogos fizeram estudos para melhorar o teclado. A primeira e surpreendente descoberta é que o teclado alfabético, que pareceria mais intuitivo, é praticamente tão difícil de aprender como o QWERT ou o HCESAR. A segunda descoberta é que, depois de aprendidos, os teclados são praticamente todos iguais. Um teclado optimizado por Dvorak, um dos fundadores da engenharia industrial moderna, e que resultou de estudos prolongados, revela-se apenas 10% mais rápido que o QWERT, quando os dactilógrafos estão igualmente experimentados em ambos os sistemas. Valerá a pena fazer a mudança?

Igualmente curioso é que a separação das letras mais frequentes, deixando de ter o interesse original de evitar problemas mecânicos, se revela muito útil no uso moderno. Nos dias de hoje, praticamente toda a gente utiliza o computador. Na sua maioria, os utilizadores usam um ou dois dedos em cada mão. Assim, é muito útil ter as letras mais frequentes espalhadas pelo teclado. Com as voltas que a tecnologia dá, o QWERT passou a ter vantagens que o seu criador não imaginava. Os teóricos do «design» tiram uma lição: depois de criado um instrumento de sucesso, é preciso cuidado com os aperfeiçoamentos inúteis, é preciso saber parar.

Nuno Crato, Vidas, 21/07/2001