Domingo, 11 de Maio de 2003
Os "falsos amigos" são palavras portuguesas usadas com um novo significado por influência do inglês. Escrevem-se de maneira semelhante em português e inglês, mas têm significados muito distintos:
"Evidências" como indício ou prova ("evidence")
"Realizar" como aperceber ("realize")
"Compreender" como abranger ("comprehend")
"Antecipado" como prever ("anticipate")
"Pretender" como simular ("to pretend")
"Actualmente" como realmente e efectivamente ("actually")
"Eventualmente" como finalmente ("eventually")
"Adição" como dependência ("addiction")
"Esperto" como especialista ("expert")
"Condescendente" como arrogante ("condescending")
"Implementar" como desenvolver ("implement")
"Suportar" como apoiar e ajudar ("to support")
"Audiência" como espectadores ("audience")
(retirado do livro de estilo do jornal Público)
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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
"Sandwich" Ou Sandes? Não É Essa a Questão
Por POR CELESTE ARAÚJO
Domingo, 11 de Maio de 2003
"Estou em stresse, o meu laptop crashou." Hoje fala-se e escreve-se assim português, mas a importação de palavras inglesas não preocupa a maioria dos linguistas. Os especialistas da língua estão apreensivos com outras mudanças - as pequenas coisas invisíveis. São elas, dizem mais de 20 investigadores, linguistas e tradutores, que alteram a estrutura da língua e estão a mudar o português.
A progressiva anulação das pronúncias regionais e a simplificação das frases são as modificações que os linguistas apontam como as mais significativas para o futuro do português. "Estas mudanças invisíveis afectam a estrutura da língua mais do que o empréstimo de palavras inglesas", diz Ivo Castro, professor da Universidade de Lisboa. E esta é a língua emergente dos meios de comunicação e da linguagem técnica - mais desterritorializada e globalizada - e que é cada vez mais dominante.
O processo não afecta apenas o português, uma vez que todas as línguas tendem hoje a desvincular-se da tradição cultural porque usam cada vez mais termos "transnacionais". E o processo não é apenas linguístico; é também económico, cultural e científico. Dos rodapés de televisão ao correio electrónico, das mensagens SMS às salas de conversa na Internet, assiste-se a um aligeiramento da escrita que acompanha a instabilidade dos meios. Uma escrita volátil, funcional, na qual a construção das frases é simplificada até ao limite. Mas isso também não é o que mais preocupa os estudiosos: estas são manifestações de carácter lúdico, são efémeras e por isso não descaracterizam o português.
Língua fechada = língua vulnerável
Todos os especialistas partem da mesma ideia: a língua é um organismo vivo, em constante movimento. "É porque muda que a língua funciona", diz Paulo Osório, professor da Universidade da Covilhã. "Uma língua fechada, sem contacto, é uma língua local e regional e por isso vulnerável", diz Fernando Gonçalves, tradutor e professor na Universidade de Coimbra. "Entrar a fundo numa língua implica sempre sair dela", continua Gonçalves, explicando que os estrangeirismos vindos do francês (como dossiê), castelhano (como ampulheta), ou árabe (alguidar), enriqueceram o português. "O que muda actualmente é que as diferenças fonéticas e da estrutura gramatical entre o português e o inglês tornam o processo visível", diz Ivo Castro.
Influências do inglês no português
O facto é que a influência do inglês é hoje inevitável e o seu poder é evidente. O inglês é a língua franca que domina a economia, a ciência, a comunicação, a tecnologia e a cultura. "Portugal é um país periférico, obrigado a importar tudo. E com a importação chegam os termos estrangeiros", diz Francisco Magalhães, Presidente da Associação Portuguesa de Tradutores. "O inglês tem de influenciar o português porque tem mais para dar do que para receber. E isso só é reprovável quando se trata de apropriações inúteis."
Ou seja, a incorporação de palavras inglesas não afecta necessariamente a identidade do português. Quando respeita a estrutura, pode até contribuir para o enriquecimento e vitalidade da língua. Mas a importação sintáctica, a que altera a construção das frases, é motivo de preocupação e descaracteriza o idioma, segundo opinião geral de mais de dezoito estudiosos da língua. O SMS escapa a este grupo porque as alterações que ocorrem são acima de tudo visuais.
A influência do inglês no português é maior ao nível do léxico. O Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC) analisou o processo de integração dos novos termos a partir de uma recolha de estrangeirismos na comunicação social, cuja classificação usamos para percorrer os vários tipos de impacto do inglês.
Empréstimos lexicais
Palavras como "crashar", "deletar", "printar", "checkar", "stressar", emprestadas do inglês, sofrem uma adaptação fonética e escrita à estrutura do português. "Os empréstimos em Portugal são normalmente aportuguesados, ou quando não sofrem estas alterações, colocam-se entre aspas", diz o professor universitário Erwin Koller, responsável por um seminário que investiga o empréstimo lexical do inglês no português em comparação com o alemão. Neste sentido, continua, "o Novo Dicionário da Academia segue uma política muito ponderada ao aportuguesar [ao nível da escrita e da fonética] as palavras que toma emprestadas ao inglês".
As expressões estrangeiras são constantes nas áreas específicas - economia, informática, música, ciência - incorporadas no português, muitas vezes sem aportuguesamento. Palavras como "outsourcing", "cross selling", "upgrading", "off shore", "groove", "download", "bass line", "hype" entre outras, são exemplos de palavras habituais na comunicação social e em linguagens técnicas, usadas sem tradução. Para Teresa Lino, que investiga na área da terminologia técnica na Universidade Nova de Lisboa, as linguagens técnicas levantam outro tipo de preocupações. "Além de resistirem ao aportuguesamento, as linguagens específicas incorporaram formas sintácticas do inglês."
Empréstimos semânticos
Há também alterações invisíveis ao nível do significado das palavras. Os decalques - designação do ILTEC - expressões como "baixo-perfil" ("low profile"), ou "política de género" ("gender policy"), não são formas lexicais novas, mas traduções literais de termos ou expressões inglesas. Dentro destes empréstimos semânticos existem os chamados falsos amigos. "Realizar", usado no sentido de compreender ("realize"); "compreender", usado no sentido de abranger ("comprehensive"); "pretender" no sentido de simular ("to pretend"), termos que recebem um novo significado por influência do inglês (ver caixa).
Mas aqui não há consenso. Para alguns linguistas, como Ivo Castro, Erwin Koller, Teresa Lino e para o ILTEC, estas mudanças semânticas são "associações inovadoras". "Extensões de significados que não afectam a estrutura do português, antes pelo contrário, mostram a sua produtividade e criatividade", resume o professor Ivo Castro.
Para outros, como Mário Vilela, professor da Universidade do Porto, Paulo Osório, e alguns tradutores, estes casos são resultado de má tradução e levantam problemas de compreensão. "Não se trata de um processo criativo, mas de falta de conhecimento, o que conduz à desfiguração da língua", diz Mário Vilela. Já Malaca Casteleiro, professor da Universidade de Lisboa e coordenador do controverso "Novo Dicionário da Academia", diz que tem que se ver caso a caso: uns poderão ser exemplos de criação lexical, outros de perturbação da língua.
Empréstimos sintácticos
O grande problema, portanto, são os empréstimos sintácticos, os tais que alteram a estrutura do português, porque modificam a construção das frases. Se são os que mais preocupam os linguistas, são também os mais difíceis de identificar.
Coisas como a utilização da voz passiva em contextos onde o português pede voz activa. "No raide ontem lançado pela infantaria americana foi conquistado o centro da capital e tomado o palácio (...)." (PÚBLICO, 8 de Abril). Outro exemplo corrente é o "ser suposto", tradução literal de "is supposed to". O uso impróprio do adjectivo antes do sujeito revela, muitas vezes, influência anglo-saxónica, como no caso "Pesadas penas de prisão para sete dissidentes" (PÚBLICO, edição citada).
O inglês tem a agilidade de construir frases curtas e o audiovisual, a imprensa escrita e a publicidade cedem ao simplificar as estruturas do português. Frases e parágrafos cada vez mais curtos, com redução do léxico ao mínimo, sem ambiguidades nem redundâncias. O processo faz-se suprimindo termos de ligação necessários, como "que", "se" ou "de". "O gosto que gosto", frase publicitária onde há uma supressão do "de" quando em português o verbo gostar o exige. Na frase "A lotação esgotou", muito comum, há uma supressão do "se" e o verbo é reflexivo e exige-o.
Estes exemplos são apontados por estudiosos como as construções que mais incomodam. Em português resulta em frases pouco fluentes, entrecortadas "como um automóvel aos solavancos", diz Fernando Gonçalves. "É uma questão de ritmo, aquilo que faz falta à língua portuguesa escrita e falada nos meios de comunicação".
O uso dos estrangeirismos é corrente em grupos restritos em áreas específicas. "É um fenómeno urbano", diz Teresa Lino. A comunidade integra-os de maneira inconsciente, através da comunicação social. Trata-se de um processo que se desencadeia de cima para baixo, dos meios de comunicação, do mercado e dos produtos culturais para o cidadão comum. "Os meios de comunicação têm um poder normativo no uso quotidiano da língua, mais do que a escola ou um congresso de linguística", diz Carlos Reis, professor da Universidade de Coimbra.
A profusão de estrangeirismos nos média dificulta a compreensão, principalmente em áreas onde os assuntos são também barreiras. Neste sentido, Malaca Casteleiro diz que "a televisão e os jornais deveriam fazer um esforço de tradução dos termos importados que empregam".
Unidade ou diversidade do português
E o facto é que o próprio inglês não fica incólume. Difundido, acaba por assumir tonalidades locais. As línguas adoptam comportamentos diferentes na integração de estrangeirismos. O processo é distinto nas várias regiões onde se fala português, principalmente no Brasil, onde a influência dos anglicismos é muito maior.
Neste sentido, Ivo Castro diz que "o português falado em Portugal, na África e no Brasil tende a afastar-se e a constituir-se com normas independentes". Esta opinião é partilhada por Teresa Lino, o linguista e escritor Vasco Graça Moura e João Saramago, investigador na Universidade de Lisboa, para quem a língua falada em continentes diferentes dará origem a "variedades" cada vez mais marcadas.
Mas Carlos Reis e Malaca Casteleiro prevêem o oposto: dizem que o português de Portugal tende a aproximar-se do português falado no Brasil. "Há instrumentos que contribuem para a unidade da língua", diz Casteleiro. Carlos Reis afirma que "esta convergência é indispensável para assegurar a sobrevivência do português com língua internacional".
Política da língua
A incorporação de novas terminologias é, segundo Adriano Duarte Rodrigues, da Universidade Nova de Lisboa, "prova da flexibilidade da língua e ao mesmo tempo sintoma da insuficiência do nosso desenvolvimento nas áreas cientificas, técnicas, económicas e culturais".
Por essa e outras razões, a maioria dos linguistas diz que a política da língua não deve passar pela criação de quotas para estrangeirismos - uma espécie de "alfândega da palavra" - como acontece em França, onde há uma política de defesa da língua com a "Lei Tobon" e uma instituição que apresenta recomendações oficiais para palavras estrangeiras. Por exemplo: "prêt-à-manger" para "fast-food".
Mas deve passar pela criação de mais objectos, mais conceitos, mais cultura. As palavras são sempre importadas sobre um suporte e não poderá evitar-se o empréstimo com a crescente importação de produtos culturais, económicos e tecnológicos. "Uma língua defende-se promovendo a cultura. Uma língua é um envelope vazio se não tiver nada lá dentro", diz Francisco Magalhães, acrescentando que "só pede emprestado quem não têm".
Defendem a criação de princípios de apoio à difusão do português no mundo (ensino, divulgação cultural e tradução); organismos que apoiem a procura dos "bons equivalentes" para expressões estrangeiras, e uma boa formação linguística dos jornalistas, com residência de linguistas e tradutores nas redacções. Estas são, dizem, as medidas pragmáticas mais indicadas para a constituição de uma política da língua ainda inexistente em Portugal.
O português em 2103
Ninguém se atreve a especular como o português será dentro de 100 anos. Mas no futuro sem data determinada, os linguistas prevêem um português mais simplificado sintacticamente e mais anglicizado em termos lexicais. Haverá uma progressiva anulação das diferentes variedades da língua, uma vez que as pronúncias caminham no sentido da neutralização. Existem também várias palavras que estão a entrar em desuso (ver caixa).
O carmim nos anos 50 foi substituído pelo "rouge", e o "rouge" converteu-se agora em "blush". Os empréstimos que fazem falta mantêm-se, os outros desaparecem. É a própria língua a depurar e a eliminar o que não faz falta. Fica o necessário.
*com Raquel Ribeiro e Raquel Schefer
(retirado do livro de estilo do jornal Público)
Domingo, 11 de Maio de 2003
"Estou em stresse, o meu laptop crashou." Hoje fala-se e escreve-se assim português, mas a importação de palavras inglesas não preocupa a maioria dos linguistas. Os especialistas da língua estão apreensivos com outras mudanças - as pequenas coisas invisíveis. São elas, dizem mais de 20 investigadores, linguistas e tradutores, que alteram a estrutura da língua e estão a mudar o português.
A progressiva anulação das pronúncias regionais e a simplificação das frases são as modificações que os linguistas apontam como as mais significativas para o futuro do português. "Estas mudanças invisíveis afectam a estrutura da língua mais do que o empréstimo de palavras inglesas", diz Ivo Castro, professor da Universidade de Lisboa. E esta é a língua emergente dos meios de comunicação e da linguagem técnica - mais desterritorializada e globalizada - e que é cada vez mais dominante.
O processo não afecta apenas o português, uma vez que todas as línguas tendem hoje a desvincular-se da tradição cultural porque usam cada vez mais termos "transnacionais". E o processo não é apenas linguístico; é também económico, cultural e científico. Dos rodapés de televisão ao correio electrónico, das mensagens SMS às salas de conversa na Internet, assiste-se a um aligeiramento da escrita que acompanha a instabilidade dos meios. Uma escrita volátil, funcional, na qual a construção das frases é simplificada até ao limite. Mas isso também não é o que mais preocupa os estudiosos: estas são manifestações de carácter lúdico, são efémeras e por isso não descaracterizam o português.
Língua fechada = língua vulnerável
Todos os especialistas partem da mesma ideia: a língua é um organismo vivo, em constante movimento. "É porque muda que a língua funciona", diz Paulo Osório, professor da Universidade da Covilhã. "Uma língua fechada, sem contacto, é uma língua local e regional e por isso vulnerável", diz Fernando Gonçalves, tradutor e professor na Universidade de Coimbra. "Entrar a fundo numa língua implica sempre sair dela", continua Gonçalves, explicando que os estrangeirismos vindos do francês (como dossiê), castelhano (como ampulheta), ou árabe (alguidar), enriqueceram o português. "O que muda actualmente é que as diferenças fonéticas e da estrutura gramatical entre o português e o inglês tornam o processo visível", diz Ivo Castro.
Influências do inglês no português
O facto é que a influência do inglês é hoje inevitável e o seu poder é evidente. O inglês é a língua franca que domina a economia, a ciência, a comunicação, a tecnologia e a cultura. "Portugal é um país periférico, obrigado a importar tudo. E com a importação chegam os termos estrangeiros", diz Francisco Magalhães, Presidente da Associação Portuguesa de Tradutores. "O inglês tem de influenciar o português porque tem mais para dar do que para receber. E isso só é reprovável quando se trata de apropriações inúteis."
Ou seja, a incorporação de palavras inglesas não afecta necessariamente a identidade do português. Quando respeita a estrutura, pode até contribuir para o enriquecimento e vitalidade da língua. Mas a importação sintáctica, a que altera a construção das frases, é motivo de preocupação e descaracteriza o idioma, segundo opinião geral de mais de dezoito estudiosos da língua. O SMS escapa a este grupo porque as alterações que ocorrem são acima de tudo visuais.
A influência do inglês no português é maior ao nível do léxico. O Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC) analisou o processo de integração dos novos termos a partir de uma recolha de estrangeirismos na comunicação social, cuja classificação usamos para percorrer os vários tipos de impacto do inglês.
Empréstimos lexicais
Palavras como "crashar", "deletar", "printar", "checkar", "stressar", emprestadas do inglês, sofrem uma adaptação fonética e escrita à estrutura do português. "Os empréstimos em Portugal são normalmente aportuguesados, ou quando não sofrem estas alterações, colocam-se entre aspas", diz o professor universitário Erwin Koller, responsável por um seminário que investiga o empréstimo lexical do inglês no português em comparação com o alemão. Neste sentido, continua, "o Novo Dicionário da Academia segue uma política muito ponderada ao aportuguesar [ao nível da escrita e da fonética] as palavras que toma emprestadas ao inglês".
As expressões estrangeiras são constantes nas áreas específicas - economia, informática, música, ciência - incorporadas no português, muitas vezes sem aportuguesamento. Palavras como "outsourcing", "cross selling", "upgrading", "off shore", "groove", "download", "bass line", "hype" entre outras, são exemplos de palavras habituais na comunicação social e em linguagens técnicas, usadas sem tradução. Para Teresa Lino, que investiga na área da terminologia técnica na Universidade Nova de Lisboa, as linguagens técnicas levantam outro tipo de preocupações. "Além de resistirem ao aportuguesamento, as linguagens específicas incorporaram formas sintácticas do inglês."
Empréstimos semânticos
Há também alterações invisíveis ao nível do significado das palavras. Os decalques - designação do ILTEC - expressões como "baixo-perfil" ("low profile"), ou "política de género" ("gender policy"), não são formas lexicais novas, mas traduções literais de termos ou expressões inglesas. Dentro destes empréstimos semânticos existem os chamados falsos amigos. "Realizar", usado no sentido de compreender ("realize"); "compreender", usado no sentido de abranger ("comprehensive"); "pretender" no sentido de simular ("to pretend"), termos que recebem um novo significado por influência do inglês (ver caixa).
Mas aqui não há consenso. Para alguns linguistas, como Ivo Castro, Erwin Koller, Teresa Lino e para o ILTEC, estas mudanças semânticas são "associações inovadoras". "Extensões de significados que não afectam a estrutura do português, antes pelo contrário, mostram a sua produtividade e criatividade", resume o professor Ivo Castro.
Para outros, como Mário Vilela, professor da Universidade do Porto, Paulo Osório, e alguns tradutores, estes casos são resultado de má tradução e levantam problemas de compreensão. "Não se trata de um processo criativo, mas de falta de conhecimento, o que conduz à desfiguração da língua", diz Mário Vilela. Já Malaca Casteleiro, professor da Universidade de Lisboa e coordenador do controverso "Novo Dicionário da Academia", diz que tem que se ver caso a caso: uns poderão ser exemplos de criação lexical, outros de perturbação da língua.
Empréstimos sintácticos
O grande problema, portanto, são os empréstimos sintácticos, os tais que alteram a estrutura do português, porque modificam a construção das frases. Se são os que mais preocupam os linguistas, são também os mais difíceis de identificar.
Coisas como a utilização da voz passiva em contextos onde o português pede voz activa. "No raide ontem lançado pela infantaria americana foi conquistado o centro da capital e tomado o palácio (...)." (PÚBLICO, 8 de Abril). Outro exemplo corrente é o "ser suposto", tradução literal de "is supposed to". O uso impróprio do adjectivo antes do sujeito revela, muitas vezes, influência anglo-saxónica, como no caso "Pesadas penas de prisão para sete dissidentes" (PÚBLICO, edição citada).
O inglês tem a agilidade de construir frases curtas e o audiovisual, a imprensa escrita e a publicidade cedem ao simplificar as estruturas do português. Frases e parágrafos cada vez mais curtos, com redução do léxico ao mínimo, sem ambiguidades nem redundâncias. O processo faz-se suprimindo termos de ligação necessários, como "que", "se" ou "de". "O gosto que gosto", frase publicitária onde há uma supressão do "de" quando em português o verbo gostar o exige. Na frase "A lotação esgotou", muito comum, há uma supressão do "se" e o verbo é reflexivo e exige-o.
Estes exemplos são apontados por estudiosos como as construções que mais incomodam. Em português resulta em frases pouco fluentes, entrecortadas "como um automóvel aos solavancos", diz Fernando Gonçalves. "É uma questão de ritmo, aquilo que faz falta à língua portuguesa escrita e falada nos meios de comunicação".
O uso dos estrangeirismos é corrente em grupos restritos em áreas específicas. "É um fenómeno urbano", diz Teresa Lino. A comunidade integra-os de maneira inconsciente, através da comunicação social. Trata-se de um processo que se desencadeia de cima para baixo, dos meios de comunicação, do mercado e dos produtos culturais para o cidadão comum. "Os meios de comunicação têm um poder normativo no uso quotidiano da língua, mais do que a escola ou um congresso de linguística", diz Carlos Reis, professor da Universidade de Coimbra.
A profusão de estrangeirismos nos média dificulta a compreensão, principalmente em áreas onde os assuntos são também barreiras. Neste sentido, Malaca Casteleiro diz que "a televisão e os jornais deveriam fazer um esforço de tradução dos termos importados que empregam".
Unidade ou diversidade do português
E o facto é que o próprio inglês não fica incólume. Difundido, acaba por assumir tonalidades locais. As línguas adoptam comportamentos diferentes na integração de estrangeirismos. O processo é distinto nas várias regiões onde se fala português, principalmente no Brasil, onde a influência dos anglicismos é muito maior.
Neste sentido, Ivo Castro diz que "o português falado em Portugal, na África e no Brasil tende a afastar-se e a constituir-se com normas independentes". Esta opinião é partilhada por Teresa Lino, o linguista e escritor Vasco Graça Moura e João Saramago, investigador na Universidade de Lisboa, para quem a língua falada em continentes diferentes dará origem a "variedades" cada vez mais marcadas.
Mas Carlos Reis e Malaca Casteleiro prevêem o oposto: dizem que o português de Portugal tende a aproximar-se do português falado no Brasil. "Há instrumentos que contribuem para a unidade da língua", diz Casteleiro. Carlos Reis afirma que "esta convergência é indispensável para assegurar a sobrevivência do português com língua internacional".
Política da língua
A incorporação de novas terminologias é, segundo Adriano Duarte Rodrigues, da Universidade Nova de Lisboa, "prova da flexibilidade da língua e ao mesmo tempo sintoma da insuficiência do nosso desenvolvimento nas áreas cientificas, técnicas, económicas e culturais".
Por essa e outras razões, a maioria dos linguistas diz que a política da língua não deve passar pela criação de quotas para estrangeirismos - uma espécie de "alfândega da palavra" - como acontece em França, onde há uma política de defesa da língua com a "Lei Tobon" e uma instituição que apresenta recomendações oficiais para palavras estrangeiras. Por exemplo: "prêt-à-manger" para "fast-food".
Mas deve passar pela criação de mais objectos, mais conceitos, mais cultura. As palavras são sempre importadas sobre um suporte e não poderá evitar-se o empréstimo com a crescente importação de produtos culturais, económicos e tecnológicos. "Uma língua defende-se promovendo a cultura. Uma língua é um envelope vazio se não tiver nada lá dentro", diz Francisco Magalhães, acrescentando que "só pede emprestado quem não têm".
Defendem a criação de princípios de apoio à difusão do português no mundo (ensino, divulgação cultural e tradução); organismos que apoiem a procura dos "bons equivalentes" para expressões estrangeiras, e uma boa formação linguística dos jornalistas, com residência de linguistas e tradutores nas redacções. Estas são, dizem, as medidas pragmáticas mais indicadas para a constituição de uma política da língua ainda inexistente em Portugal.
O português em 2103
Ninguém se atreve a especular como o português será dentro de 100 anos. Mas no futuro sem data determinada, os linguistas prevêem um português mais simplificado sintacticamente e mais anglicizado em termos lexicais. Haverá uma progressiva anulação das diferentes variedades da língua, uma vez que as pronúncias caminham no sentido da neutralização. Existem também várias palavras que estão a entrar em desuso (ver caixa).
O carmim nos anos 50 foi substituído pelo "rouge", e o "rouge" converteu-se agora em "blush". Os empréstimos que fazem falta mantêm-se, os outros desaparecem. É a própria língua a depurar e a eliminar o que não faz falta. Fica o necessário.
*com Raquel Ribeiro e Raquel Schefer
(retirado do livro de estilo do jornal Público)
terça-feira, 11 de setembro de 2012
Calão
Necas
Tas porreiro?
Quis deitar os clises mas o pasma rosnou.
Desculpa não não dar letra mas ando foleiro.
Fui com o Quim à queima, à mata linda. Havia fábrica e montada mas muito chôro.
Só achacadores e lanceiros eram mais de 20.
Guindámos duas chatas na estália mas estavam júcias de cá e viemos na ganga da
maviosa.
O Papa foi encanado no drofo. Desengomou uma ventosa com o duque e a batuta,
que deram o frosque.
Estava carregado com o apoio e a chausa e o mono deu-lhe a flagra.
Com as penosas está feito.
No sete mando parné e macanho pela faneca. Não mando alcoviteira porque se é
filada à burdia, dá estribilho.
Um Xi do Mané
Tas porreiro?
Quis deitar os clises mas o pasma rosnou.
Desculpa não não dar letra mas ando foleiro.
Fui com o Quim à queima, à mata linda. Havia fábrica e montada mas muito chôro.
Só achacadores e lanceiros eram mais de 20.
Guindámos duas chatas na estália mas estavam júcias de cá e viemos na ganga da
maviosa.
O Papa foi encanado no drofo. Desengomou uma ventosa com o duque e a batuta,
que deram o frosque.
Estava carregado com o apoio e a chausa e o mono deu-lhe a flagra.
Com as penosas está feito.
No sete mando parné e macanho pela faneca. Não mando alcoviteira porque se é
filada à burdia, dá estribilho.
Um Xi do Mané
domingo, 5 de agosto de 2012
Conselheiro Acácio
O Conselheiro Acácio conseguiu algo que só as grandes personagens literárias conseguem, ou seja, contribuir para criar termos novos: foi ele o primeiro acaciano.
Acácio anda sempre num "passo aprumado e oficial". Todo ele, aliás, é "oficial", porque é a caricatura da submissão ao poder e da pompa vazia. Nenhuma descrição supera a apresentação que o próprio Eça faz: "Sempre que dizia El-Rei! Erguia-se um pouco na cadeira. [...] Nunca usava palavras triviais; não dizia 'vomitar', fazia um gesto indicativo e empregava 'restituir'. Dizia sempre 'o nosso Garrett, o nosso Herculano'".
Criado como actor secundário, destinado a ilustrar a vacuidade da burguesia lisboeta do seu tempo, como se se tratasse de uma personagem d'"As Farpas" transformado em ficção, Acácio tem mais força do que as personagens principais e domina a cena.
A apoteose do conselheiro encontra-se no jantar que oferece aos amigos, para celebrar a concessão do grau de Cavaleiro da Ordem de Sant'Iago. Ao longo da sequência, observamos a sua hipocrisia oca, porque Acácio não é guiado, como Tartufo, pela ambição de poder ou de dinheiro, mas sim pela vaidade de ser uma figura respeitável. Por isso, a sua biblioteca tem dois níveis, o público, que é o das estantes onde se encontram os livros "apresentáveis", como a "História do Consulado e do Império", de Delille, e o privado, a mesa de cabeceira onde reina "um volume brochado das poesias obscenas de Bocage". Acácio é, pois, um hipócrita, mas é também algo pior: é um parasita que vive de um sistema social paralisado, o mesmo que não aceita que Carlos da Maia tenha uma profissão que não seja meramente decorativa e que estrangula qualquer possibilidade de progresso.
A sátira não ficaria completa sem D. Felicidade, com quem Acácio forma um par cómico, como contraponto dos amantes protagonistas. Essa prodigiosa caricatura de velha solteirona a quem os gases impedem que aperte o espartilho, também ela parasita, também ela oca e comicamente obcecada pela calva do conselheiro (uma delícia de perfídia queirosiana), está condenada a não ver nunca correspondida a sua paixão e acaba por ser um dos mais caústicos tipos sociais criados por Eça de Queirós.
Elena Losada Soler / Público, 25/08/2000
(Perfis Queirosianos, "O Primo Basílio", 1878)
Acácio anda sempre num "passo aprumado e oficial". Todo ele, aliás, é "oficial", porque é a caricatura da submissão ao poder e da pompa vazia. Nenhuma descrição supera a apresentação que o próprio Eça faz: "Sempre que dizia El-Rei! Erguia-se um pouco na cadeira. [...] Nunca usava palavras triviais; não dizia 'vomitar', fazia um gesto indicativo e empregava 'restituir'. Dizia sempre 'o nosso Garrett, o nosso Herculano'".
Criado como actor secundário, destinado a ilustrar a vacuidade da burguesia lisboeta do seu tempo, como se se tratasse de uma personagem d'"As Farpas" transformado em ficção, Acácio tem mais força do que as personagens principais e domina a cena.
A apoteose do conselheiro encontra-se no jantar que oferece aos amigos, para celebrar a concessão do grau de Cavaleiro da Ordem de Sant'Iago. Ao longo da sequência, observamos a sua hipocrisia oca, porque Acácio não é guiado, como Tartufo, pela ambição de poder ou de dinheiro, mas sim pela vaidade de ser uma figura respeitável. Por isso, a sua biblioteca tem dois níveis, o público, que é o das estantes onde se encontram os livros "apresentáveis", como a "História do Consulado e do Império", de Delille, e o privado, a mesa de cabeceira onde reina "um volume brochado das poesias obscenas de Bocage". Acácio é, pois, um hipócrita, mas é também algo pior: é um parasita que vive de um sistema social paralisado, o mesmo que não aceita que Carlos da Maia tenha uma profissão que não seja meramente decorativa e que estrangula qualquer possibilidade de progresso.
A sátira não ficaria completa sem D. Felicidade, com quem Acácio forma um par cómico, como contraponto dos amantes protagonistas. Essa prodigiosa caricatura de velha solteirona a quem os gases impedem que aperte o espartilho, também ela parasita, também ela oca e comicamente obcecada pela calva do conselheiro (uma delícia de perfídia queirosiana), está condenada a não ver nunca correspondida a sua paixão e acaba por ser um dos mais caústicos tipos sociais criados por Eça de Queirós.
Elena Losada Soler / Público, 25/08/2000
(Perfis Queirosianos, "O Primo Basílio", 1878)
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Os Números
IDENTIFICAÇÃO:
De todos os exemplos de "ruído" em rádio os números são os mais perigosos.
A situação é de tal forma grave que se pode dizer que "não há números bons" na escrita de rádio. Quando muito é apenas razoável tentar diminuir o impacto negativo, atenuar o "ruído", oralizá-los dentro do possível.
Mas é preciso, primeiro, identificar várias situações:
• Horas: só interessam as de Portugal; se for relevante podem ser dadas simultaneamente as do local de origem da notícia;
• Tempo: duas da tarde e não 14 horas; mas tanto se pode dizer "três menos num quarto" como "duas e 45" (esta última já é imediatamente descodificável ... ); hoje, ontem e amanhã, depois de amanhã, de hoje a oito dias, na próxima semana;
• Ordinais: só usar até ao 200 lugar. A partir daí já não o tricentésimo, quadragésimo sexto, mas a "posição 346"...
• Pontos ou vírgulas: 3,5 ou 3.5 milhões de contos é errado. Três milhões e meio de contos. No caso de graus e percentagens, a uniformização deve fazer-se por "três vírgula cinco" e não "três ponto cinco";
• Temperaturas: devem ser aproximadas (não se deve dizer que "nesta altura estão 26,7 graus", roas, neste caso, 27 graus);
• Fracções de tempo: nas provas de automobilismo os comentadores gostam de dizer um minuto, 12 segundos e 325 centésimos"! Ninguém fixa e, pior, ninguém sabe o que é essa fracção de tempo... (os jornais no dia seguinte ou a televisão à noite podem dar os quadros e as tabelas...); Nas provas de atletismo o problema também se põe, embora uni recorde do mundo de 9,7 segundos possa ser o "lead" (nestes casos, se não estiver em causa um recorde que possa ser ele próprio a notícia, é mais importante dizer que o segundo ficou a "x" segundos...);
• Resultados desportivos: no futebol, como na oralidade, nenhuma equipa ganha por 3- 4. A intenção de realçar que foi uma vitória forasteira deve ficar clara no texto; no ténis, os parciais são, a maior parte das vezes, "ruído" Será mesmo preciso dizer "6-7, 6-4, 6-3, 4-6 e 6-7"? Ninguém fixa! Por regra não usar parciais, a não ser que constituam, eles próprios, notícia;
• Manifestações e greves: os promotores fornecem invariavelmente números muito mais elevados do que as autoridades; restam duas alternativas: não dizer nada sobre esse pormenor ou, então, dar as duas partes;
• "Cerca de": é sempre bom fazer aproximações, mas não há "cerca de 17 feridos". A aproximação é feita aos números redondos: 10, 20, 30, 300, 5000, etc.; Os números grandes são sempre arredondados;
• Moedas: os dólares são uma moeda estranha aos portugueses (tal como os francos, as libras ou os marcos). Por causa da nova realidade do curo justifica-se, enquanto não houver unia identificação imediata, emparceirar grande valores com o equivalente em contos. E sempre que os montantes são elevados é fundamental ter um termo de comparação (cem milhões de coros pode parecer muito, mas se anterior verba para a mesma finalidade foi de 300 milhões...);
• Milhas: à excepção da prova atlética, devem ser convertidas em quilómetros (1609 metros); atenção às milhas náuticas, são diferentes;
• Percentagens: unia percentagem é sempre preferível a um número total (porque já pressupõe unia relativização). Mas tini número em percentagem não deve ser, por si só, a conclusão, a notícia; precisa sempre de uma comparação/contextualização. Se não é a história do meio frango...;
• Lotarias e totolotos: mais números que não funcionam. Mas é mesmo muito importante (os números da lotaria do Natal, por exemplo)? Então é fundamental preparar o ouvinte, avisá-lo de que vamos daqui a pouco dar-lhe os números premiados. No fundo cumprir uma antiga regra, segundo a qual "primeiro temos que dizer que vamos dizer e só depois dizê-lo'...
• Terramotos: os valores devem ser sempre relacionados com a totalidade de uma das duas escalas (Richter e Mercali), devidamente identificadas;
• Telefones: para um número de telefone "funcionar" junto dos ouvintes são precisas duas condições: ser relativamente fácil de decorar e ser muitas vezes repetido. Uni número de telefone na rádio tem unia utilidade quase nula; alternativa, se é mesmo preciso: explicá-lo por mnemónica;
• Proximidade: ontem, hoje e amanhã; nunca terça, quarta ou quinta-feira; da mesma forma, em vez de "dia 28" é correcto dizer "de hoje a oito dias" ou "na próxima semana"; só mesmo quando não há alternativa é que devem aparecer os números;
• Cem/sem: "O governo promete 100 reembolsos do IRS por dia". Mas, ouvida, a frase pode ter unia compreensão contrária. Na imprensa, a grafia diferente anula este problema, mas, ao falar, as palavras homófonas são, ou podem ser, "ruído";
ESTILO TSF.
Os números são quase sempre "ruído". Seja porque o ouvinte não consegue descodificar imediatamente o que lhe estamos a dizer ("dois terços do PIB são desperdiçados..."), porque não consegue fixar (os números de telefone ou da lotaria) ou porque há informação em excesso ("o corpo foi encontrado embrulhado em três lençóis").
E, contudo, os números são parte integrante da nossa vida. Na imprensa (e nas infografias das televisões) esta informação pode preencher páginas, mas na rádio não funciona. O mínimo de números, portanto. E com muitos cuidados, sendo que os dois principais são a aproximação e a relativização.
OUTRAS PERGUNTAS:
Como fazer a concordância com as percentagens?
30 por cento das mulheres fumam, 70 por cento da cortiça portuguesa vai para Espanha; 5 por cento da população não sabe ler; 50 por cento dos jornalistas devem ser aumentados!
Como fazer com os números no feminino?
Os números que concordam com palavras no feminino devem ser escritos por extenso. Em vez de "200 pessoas" é melhor "duzentas pessoas". As probabilidades de nos enganarmos a ler é muito menor.
"Doze a treze deputados"?
Na altura das eleições ouve-se "vai eleger doze a treze deputados". Correcto é "doze ou treze". Ou "a sondagem indica vai eleger entre 15 e 17 deputados".
"Duzentas gramas"?
Não, duzentos gramas. Grama é masculino.
Tudo O Que Passa na TsF - Livro de estilo (Editorial Jornal de Notícias, 2003)
De todos os exemplos de "ruído" em rádio os números são os mais perigosos.
A situação é de tal forma grave que se pode dizer que "não há números bons" na escrita de rádio. Quando muito é apenas razoável tentar diminuir o impacto negativo, atenuar o "ruído", oralizá-los dentro do possível.
Mas é preciso, primeiro, identificar várias situações:
• Horas: só interessam as de Portugal; se for relevante podem ser dadas simultaneamente as do local de origem da notícia;
• Tempo: duas da tarde e não 14 horas; mas tanto se pode dizer "três menos num quarto" como "duas e 45" (esta última já é imediatamente descodificável ... ); hoje, ontem e amanhã, depois de amanhã, de hoje a oito dias, na próxima semana;
• Ordinais: só usar até ao 200 lugar. A partir daí já não o tricentésimo, quadragésimo sexto, mas a "posição 346"...
• Pontos ou vírgulas: 3,5 ou 3.5 milhões de contos é errado. Três milhões e meio de contos. No caso de graus e percentagens, a uniformização deve fazer-se por "três vírgula cinco" e não "três ponto cinco";
• Temperaturas: devem ser aproximadas (não se deve dizer que "nesta altura estão 26,7 graus", roas, neste caso, 27 graus);
• Fracções de tempo: nas provas de automobilismo os comentadores gostam de dizer um minuto, 12 segundos e 325 centésimos"! Ninguém fixa e, pior, ninguém sabe o que é essa fracção de tempo... (os jornais no dia seguinte ou a televisão à noite podem dar os quadros e as tabelas...); Nas provas de atletismo o problema também se põe, embora uni recorde do mundo de 9,7 segundos possa ser o "lead" (nestes casos, se não estiver em causa um recorde que possa ser ele próprio a notícia, é mais importante dizer que o segundo ficou a "x" segundos...);
• Resultados desportivos: no futebol, como na oralidade, nenhuma equipa ganha por 3- 4. A intenção de realçar que foi uma vitória forasteira deve ficar clara no texto; no ténis, os parciais são, a maior parte das vezes, "ruído" Será mesmo preciso dizer "6-7, 6-4, 6-3, 4-6 e 6-7"? Ninguém fixa! Por regra não usar parciais, a não ser que constituam, eles próprios, notícia;
• Manifestações e greves: os promotores fornecem invariavelmente números muito mais elevados do que as autoridades; restam duas alternativas: não dizer nada sobre esse pormenor ou, então, dar as duas partes;
• "Cerca de": é sempre bom fazer aproximações, mas não há "cerca de 17 feridos". A aproximação é feita aos números redondos: 10, 20, 30, 300, 5000, etc.; Os números grandes são sempre arredondados;
• Moedas: os dólares são uma moeda estranha aos portugueses (tal como os francos, as libras ou os marcos). Por causa da nova realidade do curo justifica-se, enquanto não houver unia identificação imediata, emparceirar grande valores com o equivalente em contos. E sempre que os montantes são elevados é fundamental ter um termo de comparação (cem milhões de coros pode parecer muito, mas se anterior verba para a mesma finalidade foi de 300 milhões...);
• Milhas: à excepção da prova atlética, devem ser convertidas em quilómetros (1609 metros); atenção às milhas náuticas, são diferentes;
• Percentagens: unia percentagem é sempre preferível a um número total (porque já pressupõe unia relativização). Mas tini número em percentagem não deve ser, por si só, a conclusão, a notícia; precisa sempre de uma comparação/contextualização. Se não é a história do meio frango...;
• Lotarias e totolotos: mais números que não funcionam. Mas é mesmo muito importante (os números da lotaria do Natal, por exemplo)? Então é fundamental preparar o ouvinte, avisá-lo de que vamos daqui a pouco dar-lhe os números premiados. No fundo cumprir uma antiga regra, segundo a qual "primeiro temos que dizer que vamos dizer e só depois dizê-lo'...
• Terramotos: os valores devem ser sempre relacionados com a totalidade de uma das duas escalas (Richter e Mercali), devidamente identificadas;
• Telefones: para um número de telefone "funcionar" junto dos ouvintes são precisas duas condições: ser relativamente fácil de decorar e ser muitas vezes repetido. Uni número de telefone na rádio tem unia utilidade quase nula; alternativa, se é mesmo preciso: explicá-lo por mnemónica;
• Proximidade: ontem, hoje e amanhã; nunca terça, quarta ou quinta-feira; da mesma forma, em vez de "dia 28" é correcto dizer "de hoje a oito dias" ou "na próxima semana"; só mesmo quando não há alternativa é que devem aparecer os números;
• Cem/sem: "O governo promete 100 reembolsos do IRS por dia". Mas, ouvida, a frase pode ter unia compreensão contrária. Na imprensa, a grafia diferente anula este problema, mas, ao falar, as palavras homófonas são, ou podem ser, "ruído";
ESTILO TSF.
Os números são quase sempre "ruído". Seja porque o ouvinte não consegue descodificar imediatamente o que lhe estamos a dizer ("dois terços do PIB são desperdiçados..."), porque não consegue fixar (os números de telefone ou da lotaria) ou porque há informação em excesso ("o corpo foi encontrado embrulhado em três lençóis").
E, contudo, os números são parte integrante da nossa vida. Na imprensa (e nas infografias das televisões) esta informação pode preencher páginas, mas na rádio não funciona. O mínimo de números, portanto. E com muitos cuidados, sendo que os dois principais são a aproximação e a relativização.
OUTRAS PERGUNTAS:
Como fazer a concordância com as percentagens?
30 por cento das mulheres fumam, 70 por cento da cortiça portuguesa vai para Espanha; 5 por cento da população não sabe ler; 50 por cento dos jornalistas devem ser aumentados!
Como fazer com os números no feminino?
Os números que concordam com palavras no feminino devem ser escritos por extenso. Em vez de "200 pessoas" é melhor "duzentas pessoas". As probabilidades de nos enganarmos a ler é muito menor.
"Doze a treze deputados"?
Na altura das eleições ouve-se "vai eleger doze a treze deputados". Correcto é "doze ou treze". Ou "a sondagem indica vai eleger entre 15 e 17 deputados".
"Duzentas gramas"?
Não, duzentos gramas. Grama é masculino.
Tudo O Que Passa na TsF - Livro de estilo (Editorial Jornal de Notícias, 2003)
quinta-feira, 14 de junho de 2012
Lusitol e Brasitol
Entre Portugal e o Brasil tudo nos liga nada nos separa. A não ser a língua (e já agora os dentes). É um fosso abissal, e para prová-lo Mauro Villar escreveu o "Dicionário Contrastivo Luso-Brasileiro" com mais de 12 mil verbetes. De posse destes dados, Millôr Fernandes construiu dois textos em "lusitol" e depois traduziu o mesmo para "brasilol". É o que se segue:
"Estava a conduzir meu automóvel numa azinhaga com um borracho muito giro ao lado, quando dei com uma bossa na estrada de circunvalação que um bera teve a lata de deixar. Escapei de me espalhar à justa. Em havendo um bufete à frente convidei a chavala a um copo. Botei o chiante na berma e ordenamos ao criado de mesa, uma sande de fiambre em carcaça eu, e ela um miau. O panasqueiro, com jeito de marialva paneleiro, um chalado da pinha, embora nos tratando nas palminhas, trouxe-nos a sande com a carcaça esturrada (e sem caganitas!), e, faltando-lhe o miau, deu-nos um prego duro."
Agora em "brasilol": "Eu dirigia meu carro por um caminho de pedras tendo ao lado uma gata espetacular, quando vi um lombo na estrada de contorno que um escrote teve o descaramento de fazer. Por pouco não bati. Como havia em frente uma lanchonete, convidei a mina a tomar um drinque. Coloquei o carro ao acostamento e pedimos ao garçon sanduíche de presunto com pão de forma, eu, e ela sanduíche de lombinho. O gozador, com jeito de don Juan bicha, muito louco, embora nos tratando muito bem, trouxe o sanduíche com pão queimado (e sem azeitonas!) e não tendo sanduíche de lombinho, trouxe um churrasquinho duro."
Duda Guennes, Jornal A Bola, 22/08/1998
Duda Guennes é um jornalista brasileiro residente em Portugal
retirado do Ciberduvidas, 25/08/1998
"Estava a conduzir meu automóvel numa azinhaga com um borracho muito giro ao lado, quando dei com uma bossa na estrada de circunvalação que um bera teve a lata de deixar. Escapei de me espalhar à justa. Em havendo um bufete à frente convidei a chavala a um copo. Botei o chiante na berma e ordenamos ao criado de mesa, uma sande de fiambre em carcaça eu, e ela um miau. O panasqueiro, com jeito de marialva paneleiro, um chalado da pinha, embora nos tratando nas palminhas, trouxe-nos a sande com a carcaça esturrada (e sem caganitas!), e, faltando-lhe o miau, deu-nos um prego duro."
Agora em "brasilol": "Eu dirigia meu carro por um caminho de pedras tendo ao lado uma gata espetacular, quando vi um lombo na estrada de contorno que um escrote teve o descaramento de fazer. Por pouco não bati. Como havia em frente uma lanchonete, convidei a mina a tomar um drinque. Coloquei o carro ao acostamento e pedimos ao garçon sanduíche de presunto com pão de forma, eu, e ela sanduíche de lombinho. O gozador, com jeito de don Juan bicha, muito louco, embora nos tratando muito bem, trouxe o sanduíche com pão queimado (e sem azeitonas!) e não tendo sanduíche de lombinho, trouxe um churrasquinho duro."
Duda Guennes, Jornal A Bola, 22/08/1998
Duda Guennes é um jornalista brasileiro residente em Portugal
retirado do Ciberduvidas, 25/08/1998
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Bocês soindes do Norte, carago ?!..
Moiros e morcões
Desde que foi feita a A1 não há mais razões para que o Porto e Lisboa, o Norte e o Sul, os trabalhadores e os malandros... continuem de costas voltadas uns para os outros. E quem, diz a A1 diz o nosso TêGêBê, o tal de Alfa pendular que vai de Lisboa ao Porto num foguete. Eliminadas as barreiras físícas, restam séculos de isolamento cultural que criaram idiossincracias próprias nos sulistas e nos nortenhos... Há agora outras barreiras (mentais, culturais, sociolinguísticas, gastronómicas, etc.) a vencer. Este teste que aqui deixo é uma homenagem a seu autor (um genial ilustre desconhecido, presumivelmente tripeiro, que nos dá aqui a sua versão 'soft' do termo 'azeiteiro' e de outros vocábulos do linguajar da Invicta) e a todos aqueles, dos moiros aos morcões, que só conhecem uma das duas metades do país que é seu. A sério, respondam ao teste. Vão ver que há um outro Portugal por descobrir. E se, no ano passado, perderam o Porto 2001 Capital Europeia da Cultura, ficam agora redimidos/as no caso de responderem correctamente às 25 perguntas deste questionário. Cibersaudações. L.G.
Post scriptum - Críticas, sugestões e comentários: precisam-se!
_______________________________
Bocês soindes do Norte, carago ?!
Teste (Fonte: E-mail/Internet. Autor desconhecido)
Recolha e adaptação: L. G. (Mai.2002)
Ler a seguir cada uma das perguntas, numereadas de 1 a 25, e ponha uma bolinha na letra (a, b, c, d) correspondente à resposta certa. No final faça o apuramento dos resultados. Uma chave ajudá-lo-á a fazer a correcta interpretação das suas respostas.
1.Se alguém grita, "tens um foguete na perna!", isso significa que:
a) vislumbrou um sinal de nascença no seu tornozelo.
b) descobriu uma mosca pousada na sua coxa.
c) acha que você anda muito depressa.
d) você tem uma malha no collant.
2. Pouco antes da hora do jantar alguém afirma que lhe apetece um molete. Isso quer dizer que:
a)é disléxico e queria dizer que está louco para comer uma omoleta.
b)quer dar-lhe um beijo na boca.
c)está a convidá-lo para ir a uma padaria comprar um papo-seco.
d)deseja deliciar-se com um cocktail típico da Ribeira.
3. Em pleno Majestic você ouve pedir um cimbalino. O empregado vai trazer à mesa:
a) uma bica.
b) um bolo típico do Porto feito com amêndoas e mel.
c) um chá quente.
d) o jornal do dia.
4. Estão na discoteca Indústria alguém lhe jura que dava tudo para
deliciar-se com uma francesinha. Ou seja, essa pessoa pretende é:
a) convidar a sua prima que é emigrante em Paris para dançar.
b) pedir ao dj para passar uma música francesa.
c) comer uma especialidade do Porto que à primeira vista, mais parece um croque monsieur.
d) dançar com aquela rapariga loura que termina cada frase com "oh! mon Dieu".
5. Antes de entrar na banheira, ele/ela pede-lhe para ligar o cilindro. Você dirige-se ao:
a) esquentador.
b) ferro de passar a roupa.
c) forno.
d) termo-acumulador.
6. Depois de fazerem as malas para uma viagem ele/ela pergunta-lhe se você tem um aloquete. O que ele/ela quer é:
a) um cadeado para fechar um dos sacos.
b) saber se você tem o bilhete de avião.
c) um isqueiro para acender um cigarro.
d) a chave da mala.
7. Depois de uma tarde de muita paixão e sexo intenso, ele/ela diz-lhe
que lhe apetece comer orelhas. Isto quer dizer que:
a) tem um fetiche pelas suas orelhas e você nem tinha percebido.
b) quer que apanhe o cabelo para poder mordiscar-lhe as orelhas.
c) apetece-lhe ir a uma pastelaria comer um "palmier".
d) quer que você vá à cozinha preparar uma saladinha de orelha de porco.
8. Durante uma discussão você nega ter saído sozinho com os amigos. O seu companheiro/a diz-lhe: "bai no Batalha!". O que traduzindo à letra é:
a) "o melhor é ires à Casa Batalha."
b) "isso é tanga."
c) "esta conversa é uma batalha perdida."
d) "vai dar uma volta."
9. Você descobre que o primo dele/a é trolha. Isto é:
a) é bruto.
b) é burro.
c) é parvo.
d) trabalha na construção civil.
10. Em plena Rua de Santa Catarina ele/a dirige-se a uma loja e pede-lhe ajuda para comprar um testo.
a) você ouviu mal e ele está decido a adquirir um cesto.
b) ele procura a tampa de uma panela.
c) você vai ajudá-lo a escolher uma cama.
d) a sua opinião vai ser importante na escolha do tapete para a sala.
11. Ele/ela convida-o para uns lanches. Você:
a) irá lanchar várias vezes com essa pessoa.
b) vai deliciar-se com umas merendinhas fantásticas que ele/ela confeccionou.
c) executará, a meias, um bolo de aniversário.
d) está convidada para lanchar com a mãe dele/a, duas vezes na mesma semana.
12. Ele/ela diz-lhe que não pode ir ter consigo pois está à espera do picheleiro. Quer dizer:
a) está à espera do canalizador.
b) aguarda a chegada do electricista.
c) do andrologista.
d) inventou uma desculpa para não comparecer ao encontro.
13. Estão os dois a confeccionar um jantar romântico. Ele/ela pede-lhe a sertã, você abre o armário e dá-lhe:
a) um funil.
b) o passe-vite.
c) a frigideira.
d) a faca de trinchar.
14. À porta do cinema perguntam-lhe se você tem pasta. A pessoa:
a) pretende lavar os dentes.
b) estará a falar de um qualquer prato italiano?
c) precisa de uns trocos.
d) quer guardar a sua mala de executiva.
15. Quando ouve dizer que fica muito mais giro com repas, estão a falar da:
a) sua roupa interior.
b) pulseira que os seus pais lhe ofereceram.
c) franja.
d) saia.
16. No bar «O Meu Mercedes é Maior que o Teu» ouve pedir um fino. À mesa chegará:
a) uma linguiça assada.
b) uma cigarrilha.
c) um lápis.
d) uma imperial.
17. Depois de uns copos a mais alguém diz que está ourado, ou seja:
a) tem fome.
b) está com tonturas.
c) vai rezar.
d) tem cãibras.
18. Alguém diz que você passa a vida preocupada com as espinhas. Você dá demasiada atenção às:
a) espinhas do peixe.
b) unhas dos pés.
c) borbulhas.
d) fofocas.
19. Você está a ajudar um amigo nas mudanças para a nova casa. De repente, ele diz-lhe que tem de comprar cruzetas. Você acrescenta na lista de compras:
a) molas da roupa.
b) pensos rápidos.
c) cabides.
d) laranjas.
20. No mercado, ele/ela exclama: "mas que linda penca!" Você acha que ele/ela:
a) quer comprar uma couve.
b) acha que o seu nariz é tamanho XL.
c) descobriu um fruto raro e exótico numa das bancas.
d) está a referir-se à vendedora.
21. Ele/ela queixa-se da pisadura que você lhe fez. Ele/ela ainda não esqueceu:
a) a pisadela que você lhe deu.
b) a nódoa negra da noite anterior.
c) o apertão que levou no autocarro.
d) a partida que você lhe pregou.
22. Ele/ela acha que o seu melhor amigo não passa de um azeiteiro. Isto significa que:
a) tem o cabelo oleoso.
b) trabalha num lagar.
c) fez a campanha de publicidade de um azeite de marca.
d) é um bimbo.
23. Dizem-lhe, franzindo o sobrolho "Tens aí uma catota!". Você tem:
a) um resto de comida no dente.
b) um risco de caneta na cara.
c) um macaco no nariz.
d) uma linha pendurada no casaco.
24. A sua tia pede-lhe que coloque o seu primo no pote. Você põe o miúdo:
a) à janela.
b) dentro da banheira.
c) no bacio.
d) a ver televisão.
25. Vão os dois almoçar à Ribeira, à Casa da Filha da Mãe Preta e pedem iscas. Você acha que vai comer:
a) figado.
b) pataniscas.
c) peixinhos da horta.
d) espetada mista.
SOLUÇÕES:
1.d 6.a 11.b 16.d 21.b
2.c 7.c 12.a 17.b 22.d
3.a 8.b 13.c 18.c 23.c
4.c 9.d 14.c 19.c 24.c
5.d 10.b 15.c 20.a 25.b
INTERPRETAÇÂO DO RESULTADO:
A.Mais de 20 pontos: Tripeiro/a nato/a
Você é um homem/mulher do Norte! Não há nada que lhe escape: que ninguém pense em abordá-lo com falinhas mansas sem um cimbalino e uma francesinha na mão! Para si, tudo o que não esteja num raio de cinco quilómetros à volta da Torre dos Clérigos é paisagem. Aprovado com distinção neste teste de Portualidade: já pode ir contando com um convite para ser o rei/rainha da noite de S. João.
B.De 5 a 20 pontos: Portuga acima de tudo.
Você vai ser uma boa surpresa para os seus amigos do Norte! Sabe o suficiente para se dar às mil maravilhas com as gentes desta cidade. Não troca os bês pelos vês nem leva a mal q ue lhe chamem moiro. Trata os amigos do Norte por morcões. De certeza que conhece toda a zona Ribeira, incluindo bares e restaurantes. Com um pouco de esforço, não terá problemas em tornar-se cidadão honorário da Invicta!
C.Menos de 5: Alfacinha de gema, mouro dos sete costados.
“Porto? Fica ali ao pé de Espanha, não é?" Da Invicta você sabe tanto como da Islândia: quase nada, para além do muito pouco que aprendeu na escola. Está na altura de aceitar um convite do um amigo e fazer uma peregrinação cultural ao Porto para experimentar tudo o que de bom esta cidade tem para oferecer. De jardins e exposições no Museu de Serralves à livraria Lello. Do café Majestic aos passeios à beira-rio. Não terá mãos a medir com tantos bons programas. E sobretudo irá conhecer a hospitalidade da gente “daqui onde houve nome Portugal”.
Post de Luís Graça, 04.06.2002 18h54
Fórum Público Cidadania
Aqui vai mais um texto para a lição de hoje sobre o "galaico-português" que ainda hoje se fala em riba Douro. Fonte:
http://eventos.clix.pt/porto2001/roteiro/24071
"José entra no café para tomar o “mata-bicho” (pequeno-almoço). Pede um “molete” (pão) com manteiga e um “cimbalino” (café). À falta de chávenas, a empregada do café serve-lhe o dito numa “malga” (tigela).
"O ambiente está tão agradável que José se instala melhor na sua cadeira, a ver as pessoas que entram e saem do café. Decide pedir um “fino”, desrespeitando as indicações do médico que o proibiu de “apanhar um torcido” (bebedeira), também conhecido por “rosca”, “nassa”, “boroa” ou “moca”.
"O cheirinho a “estrujido” (refogado) invade o lugar e José, que não viu o tempo passar, começa a pensar nos “morfes” (comida) que a ementa lhe reserva para o almoço. Chama de novo a empregada que se aproxima da mesa ainda com o “testo”(tampa) da panela na mão.
"Satisfeito com o repasto servido, e um pouco toldado pelos “finos” que ingeriu, José pede a “dolorosa” (conta) enquanto vasculha os bolsos à procura de “pilim” (dinheiro). A custo, lá encontra duas “breques” (notas) e “bota-as” no balcão.
"Ao sair do estabelecimento, José pisa inadvertidamente a cauda de um “jeco” (cão) que por ali passava e “dá um terno” aparatoso para cima do “boeiro” (sarjeta). “Carago!”, exclama ele ao ver no estado lastimoso em que ficou: “lunetas” (óculos) e “cebola” (relógio) partidos, “coturnos” (meias) rotos...
"Uma desgraça! Nem se salvaram os “tribunais” (sapatos), sujos pelo “betume” (massa vidraceira) espalhado pelo chão. Quando José se levanta repara que todos se estão a rir dele, apontando para o seu “pandeiro”. As calças rasgadas, era só o que faltava. Há quem chame José de “broeiro” e “azeiteiro” (rude). Que culpa tem ele de ser tão distraído?
Webideias"
outro post de LG
Desde que foi feita a A1 não há mais razões para que o Porto e Lisboa, o Norte e o Sul, os trabalhadores e os malandros... continuem de costas voltadas uns para os outros. E quem, diz a A1 diz o nosso TêGêBê, o tal de Alfa pendular que vai de Lisboa ao Porto num foguete. Eliminadas as barreiras físícas, restam séculos de isolamento cultural que criaram idiossincracias próprias nos sulistas e nos nortenhos... Há agora outras barreiras (mentais, culturais, sociolinguísticas, gastronómicas, etc.) a vencer. Este teste que aqui deixo é uma homenagem a seu autor (um genial ilustre desconhecido, presumivelmente tripeiro, que nos dá aqui a sua versão 'soft' do termo 'azeiteiro' e de outros vocábulos do linguajar da Invicta) e a todos aqueles, dos moiros aos morcões, que só conhecem uma das duas metades do país que é seu. A sério, respondam ao teste. Vão ver que há um outro Portugal por descobrir. E se, no ano passado, perderam o Porto 2001 Capital Europeia da Cultura, ficam agora redimidos/as no caso de responderem correctamente às 25 perguntas deste questionário. Cibersaudações. L.G.
Post scriptum - Críticas, sugestões e comentários: precisam-se!
_______________________________
Bocês soindes do Norte, carago ?!
Teste (Fonte: E-mail/Internet. Autor desconhecido)
Recolha e adaptação: L. G. (Mai.2002)
Ler a seguir cada uma das perguntas, numereadas de 1 a 25, e ponha uma bolinha na letra (a, b, c, d) correspondente à resposta certa. No final faça o apuramento dos resultados. Uma chave ajudá-lo-á a fazer a correcta interpretação das suas respostas.
1.Se alguém grita, "tens um foguete na perna!", isso significa que:
a) vislumbrou um sinal de nascença no seu tornozelo.
b) descobriu uma mosca pousada na sua coxa.
c) acha que você anda muito depressa.
d) você tem uma malha no collant.
2. Pouco antes da hora do jantar alguém afirma que lhe apetece um molete. Isso quer dizer que:
a)é disléxico e queria dizer que está louco para comer uma omoleta.
b)quer dar-lhe um beijo na boca.
c)está a convidá-lo para ir a uma padaria comprar um papo-seco.
d)deseja deliciar-se com um cocktail típico da Ribeira.
3. Em pleno Majestic você ouve pedir um cimbalino. O empregado vai trazer à mesa:
a) uma bica.
b) um bolo típico do Porto feito com amêndoas e mel.
c) um chá quente.
d) o jornal do dia.
4. Estão na discoteca Indústria alguém lhe jura que dava tudo para
deliciar-se com uma francesinha. Ou seja, essa pessoa pretende é:
a) convidar a sua prima que é emigrante em Paris para dançar.
b) pedir ao dj para passar uma música francesa.
c) comer uma especialidade do Porto que à primeira vista, mais parece um croque monsieur.
d) dançar com aquela rapariga loura que termina cada frase com "oh! mon Dieu".
5. Antes de entrar na banheira, ele/ela pede-lhe para ligar o cilindro. Você dirige-se ao:
a) esquentador.
b) ferro de passar a roupa.
c) forno.
d) termo-acumulador.
6. Depois de fazerem as malas para uma viagem ele/ela pergunta-lhe se você tem um aloquete. O que ele/ela quer é:
a) um cadeado para fechar um dos sacos.
b) saber se você tem o bilhete de avião.
c) um isqueiro para acender um cigarro.
d) a chave da mala.
7. Depois de uma tarde de muita paixão e sexo intenso, ele/ela diz-lhe
que lhe apetece comer orelhas. Isto quer dizer que:
a) tem um fetiche pelas suas orelhas e você nem tinha percebido.
b) quer que apanhe o cabelo para poder mordiscar-lhe as orelhas.
c) apetece-lhe ir a uma pastelaria comer um "palmier".
d) quer que você vá à cozinha preparar uma saladinha de orelha de porco.
8. Durante uma discussão você nega ter saído sozinho com os amigos. O seu companheiro/a diz-lhe: "bai no Batalha!". O que traduzindo à letra é:
a) "o melhor é ires à Casa Batalha."
b) "isso é tanga."
c) "esta conversa é uma batalha perdida."
d) "vai dar uma volta."
9. Você descobre que o primo dele/a é trolha. Isto é:
a) é bruto.
b) é burro.
c) é parvo.
d) trabalha na construção civil.
10. Em plena Rua de Santa Catarina ele/a dirige-se a uma loja e pede-lhe ajuda para comprar um testo.
a) você ouviu mal e ele está decido a adquirir um cesto.
b) ele procura a tampa de uma panela.
c) você vai ajudá-lo a escolher uma cama.
d) a sua opinião vai ser importante na escolha do tapete para a sala.
11. Ele/ela convida-o para uns lanches. Você:
a) irá lanchar várias vezes com essa pessoa.
b) vai deliciar-se com umas merendinhas fantásticas que ele/ela confeccionou.
c) executará, a meias, um bolo de aniversário.
d) está convidada para lanchar com a mãe dele/a, duas vezes na mesma semana.
12. Ele/ela diz-lhe que não pode ir ter consigo pois está à espera do picheleiro. Quer dizer:
a) está à espera do canalizador.
b) aguarda a chegada do electricista.
c) do andrologista.
d) inventou uma desculpa para não comparecer ao encontro.
13. Estão os dois a confeccionar um jantar romântico. Ele/ela pede-lhe a sertã, você abre o armário e dá-lhe:
a) um funil.
b) o passe-vite.
c) a frigideira.
d) a faca de trinchar.
14. À porta do cinema perguntam-lhe se você tem pasta. A pessoa:
a) pretende lavar os dentes.
b) estará a falar de um qualquer prato italiano?
c) precisa de uns trocos.
d) quer guardar a sua mala de executiva.
15. Quando ouve dizer que fica muito mais giro com repas, estão a falar da:
a) sua roupa interior.
b) pulseira que os seus pais lhe ofereceram.
c) franja.
d) saia.
16. No bar «O Meu Mercedes é Maior que o Teu» ouve pedir um fino. À mesa chegará:
a) uma linguiça assada.
b) uma cigarrilha.
c) um lápis.
d) uma imperial.
17. Depois de uns copos a mais alguém diz que está ourado, ou seja:
a) tem fome.
b) está com tonturas.
c) vai rezar.
d) tem cãibras.
18. Alguém diz que você passa a vida preocupada com as espinhas. Você dá demasiada atenção às:
a) espinhas do peixe.
b) unhas dos pés.
c) borbulhas.
d) fofocas.
19. Você está a ajudar um amigo nas mudanças para a nova casa. De repente, ele diz-lhe que tem de comprar cruzetas. Você acrescenta na lista de compras:
a) molas da roupa.
b) pensos rápidos.
c) cabides.
d) laranjas.
20. No mercado, ele/ela exclama: "mas que linda penca!" Você acha que ele/ela:
a) quer comprar uma couve.
b) acha que o seu nariz é tamanho XL.
c) descobriu um fruto raro e exótico numa das bancas.
d) está a referir-se à vendedora.
21. Ele/ela queixa-se da pisadura que você lhe fez. Ele/ela ainda não esqueceu:
a) a pisadela que você lhe deu.
b) a nódoa negra da noite anterior.
c) o apertão que levou no autocarro.
d) a partida que você lhe pregou.
22. Ele/ela acha que o seu melhor amigo não passa de um azeiteiro. Isto significa que:
a) tem o cabelo oleoso.
b) trabalha num lagar.
c) fez a campanha de publicidade de um azeite de marca.
d) é um bimbo.
23. Dizem-lhe, franzindo o sobrolho "Tens aí uma catota!". Você tem:
a) um resto de comida no dente.
b) um risco de caneta na cara.
c) um macaco no nariz.
d) uma linha pendurada no casaco.
24. A sua tia pede-lhe que coloque o seu primo no pote. Você põe o miúdo:
a) à janela.
b) dentro da banheira.
c) no bacio.
d) a ver televisão.
25. Vão os dois almoçar à Ribeira, à Casa da Filha da Mãe Preta e pedem iscas. Você acha que vai comer:
a) figado.
b) pataniscas.
c) peixinhos da horta.
d) espetada mista.
SOLUÇÕES:
1.d 6.a 11.b 16.d 21.b
2.c 7.c 12.a 17.b 22.d
3.a 8.b 13.c 18.c 23.c
4.c 9.d 14.c 19.c 24.c
5.d 10.b 15.c 20.a 25.b
INTERPRETAÇÂO DO RESULTADO:
A.Mais de 20 pontos: Tripeiro/a nato/a
Você é um homem/mulher do Norte! Não há nada que lhe escape: que ninguém pense em abordá-lo com falinhas mansas sem um cimbalino e uma francesinha na mão! Para si, tudo o que não esteja num raio de cinco quilómetros à volta da Torre dos Clérigos é paisagem. Aprovado com distinção neste teste de Portualidade: já pode ir contando com um convite para ser o rei/rainha da noite de S. João.
B.De 5 a 20 pontos: Portuga acima de tudo.
Você vai ser uma boa surpresa para os seus amigos do Norte! Sabe o suficiente para se dar às mil maravilhas com as gentes desta cidade. Não troca os bês pelos vês nem leva a mal q ue lhe chamem moiro. Trata os amigos do Norte por morcões. De certeza que conhece toda a zona Ribeira, incluindo bares e restaurantes. Com um pouco de esforço, não terá problemas em tornar-se cidadão honorário da Invicta!
C.Menos de 5: Alfacinha de gema, mouro dos sete costados.
“Porto? Fica ali ao pé de Espanha, não é?" Da Invicta você sabe tanto como da Islândia: quase nada, para além do muito pouco que aprendeu na escola. Está na altura de aceitar um convite do um amigo e fazer uma peregrinação cultural ao Porto para experimentar tudo o que de bom esta cidade tem para oferecer. De jardins e exposições no Museu de Serralves à livraria Lello. Do café Majestic aos passeios à beira-rio. Não terá mãos a medir com tantos bons programas. E sobretudo irá conhecer a hospitalidade da gente “daqui onde houve nome Portugal”.
Post de Luís Graça, 04.06.2002 18h54
Fórum Público Cidadania
Aqui vai mais um texto para a lição de hoje sobre o "galaico-português" que ainda hoje se fala em riba Douro. Fonte:
http://eventos.clix.pt/porto2001/roteiro/24071
"José entra no café para tomar o “mata-bicho” (pequeno-almoço). Pede um “molete” (pão) com manteiga e um “cimbalino” (café). À falta de chávenas, a empregada do café serve-lhe o dito numa “malga” (tigela).
"O ambiente está tão agradável que José se instala melhor na sua cadeira, a ver as pessoas que entram e saem do café. Decide pedir um “fino”, desrespeitando as indicações do médico que o proibiu de “apanhar um torcido” (bebedeira), também conhecido por “rosca”, “nassa”, “boroa” ou “moca”.
"O cheirinho a “estrujido” (refogado) invade o lugar e José, que não viu o tempo passar, começa a pensar nos “morfes” (comida) que a ementa lhe reserva para o almoço. Chama de novo a empregada que se aproxima da mesa ainda com o “testo”(tampa) da panela na mão.
"Satisfeito com o repasto servido, e um pouco toldado pelos “finos” que ingeriu, José pede a “dolorosa” (conta) enquanto vasculha os bolsos à procura de “pilim” (dinheiro). A custo, lá encontra duas “breques” (notas) e “bota-as” no balcão.
"Ao sair do estabelecimento, José pisa inadvertidamente a cauda de um “jeco” (cão) que por ali passava e “dá um terno” aparatoso para cima do “boeiro” (sarjeta). “Carago!”, exclama ele ao ver no estado lastimoso em que ficou: “lunetas” (óculos) e “cebola” (relógio) partidos, “coturnos” (meias) rotos...
"Uma desgraça! Nem se salvaram os “tribunais” (sapatos), sujos pelo “betume” (massa vidraceira) espalhado pelo chão. Quando José se levanta repara que todos se estão a rir dele, apontando para o seu “pandeiro”. As calças rasgadas, era só o que faltava. Há quem chame José de “broeiro” e “azeiteiro” (rude). Que culpa tem ele de ser tão distraído?
Webideias"
outro post de LG
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Guia para compreender os Sub-30
A
Axandrar – acalmar; aguentar os cavalos
Azeite – bimbalhada; marca de xunguice
Avacalhar – dizer palermices; estragar a conversa
B
Bacano – rapaz simpático; boa pessoa
Beca – um pouco; uma trinca
Buba – estado pouco sóbrio; bebedeira
Baril – cena boa; porreira
Bazar – zarpar; ir embora; pular fora
Bejeca – cervejola; cerveja; sumo de cevada
Bandeira – estar a chamar demasiado a atenção: estar a dar nas vistas
Banhada – desilusão; expectativa defraudada
Briol – frio
Burrié – macaco do nariz; porcaria alojada nas narinas
Boiça – estúpido
Bute – vamos
C
Cover – versão musical
Chavascal – fazer uma confusão; imundície
Chavalas – raparigas; moças
Cenaça – objecto ou situação invulgar: charro
Cotas – caretas; pessoal bota-de-elástico
Coirão – alguém muito pouco atractivo; aborto de pessoa
D
Desbunda – curtição total; saltar a tampa; estar a passar-se
E
Espiga – problema; obstáculo
Estrilhar – mandar vir; reclamar
Estucha – seca; chatice
F
Flipar – estar a passar-se; não estar em boas condições; apanhar com o efeito da droga
Fatelo – pessoa ou cena pirosa; algo que não está "in"
Ferrado – somítico; agarrado ao dinheiro; sovina
G
Griso – frio
Grisar – rir; passar-se
Groopie – fã que segue uma banda permanentemente
Garina – moça jovem; namorada
Gregoriar – vomitar
Granel – arranjar confusão; sarilhos
Glam – glamour; atitude charme
Guito – dinheiro
J
Janado – sob o efeito da droga
Judite – Polícia judiciária
K
Kosh – parte pequena; um bocado
M
Morfar – comer; enfardar
Mouros – o pessoal do Sul
Morcões – o pessoal do Norte
Marar – morrer; findar-se
Mosh – forma de dança
Monhé –indiano; árabe
Maca – confusão; sarilho
N
Népia – nada
P
Pívia – masturbação
Pedra – efeito da droga; algo de muito bom
People – pessoal; povo
Pita – rapariga jovem; pitinha
Penantes – ir a pé; ir a butes
Podre – alguém ou algo muito bom
Q
Queca – relação sexual
R
Rasca – cena manhosa; algo de pouca qualidade
S
Shota – a polícia
Shoegazzers – alguém demasiado preocupado consigo próprio
Sapar – ir com pressa; acelerar
T
Tanga – aldrabice; mentira
Tótil – porreiro; impecável
Tijolo – aparelhagem portátil
Tripar – passar-se, sobretudo com os efeitos da droga; inventar; divertir-se imenso
V
Vaipe – reacção inesperada; disposição inesperada
Vacarrussa – rapariga que vai com todos
X
Xonar – dormir; partir choco
*Nota: algumas destas palavras não têm regra específica para serem escritas, já que pertencem à tradição oral. Além disso, são "não aconselháveis a pessoas hiper-susceptíveis".
Apêndice do artigo "Guia para compreender os Sub-30" publicado em fins da década de 1990 no Notícias magazine
E como mudou muita coisa deste essa altura!
Aqui fica a lista de assuntos abordados nesse artigo: A - Arrumadores, Abrunhosa, Acid Jazz; B - Bunjee Jumping, Bips, Brit Pop, Beavis e Butthead, Blitz, Bandas de Garagem, BD; C - Cartão Jovem, Claques, Conta Jovem, Catarina Furtado, Clubes de Fãs, Corte de cabelo (filme), Cerveja; D - Dani (jogador), DJ, Deus, Daniel Sampaio; E - Erva, Ecstasy; F - Fast Food, Face (revista inglesa), fanzines; G - Galãs, Grunge (tipo de música), Geração Rasca (ou À Rasca); H - Hal Hartley; I - Indies (música alternativa), Internet; J - Juncos Silvestres (filme); João Vieira Pinto, Jungle (tipo de música); Jarvis Cocker; K - Kate Moss, Kids (filme); L - Londres; M - Mosh, MTV, MEC; N - NBK (filme), Noctívagos; O - One CK; P - Poppers ("droga"), Praia, Propinas, Preservativo; Q - Quentin Tarantino; R - Radical, Raves (festas), Ragazza (revista juvenil); S - Smashing Pumpkins, Super rock Super Bock, Subúrbios; T - Trekers, Tá-se Bêm, Tribos, Ténis Airwalk; "Todos Diferentes, todos Iguais", tatuagens; U - Ultras Portugal; W - Winona Ryder (actriz); X - XFM (estação de rádio), Xunga, X-files (série), Xutos & Pontapés; Y - Yuppies; Z - Zara
Axandrar – acalmar; aguentar os cavalos
Azeite – bimbalhada; marca de xunguice
Avacalhar – dizer palermices; estragar a conversa
B
Bacano – rapaz simpático; boa pessoa
Beca – um pouco; uma trinca
Buba – estado pouco sóbrio; bebedeira
Baril – cena boa; porreira
Bazar – zarpar; ir embora; pular fora
Bejeca – cervejola; cerveja; sumo de cevada
Bandeira – estar a chamar demasiado a atenção: estar a dar nas vistas
Banhada – desilusão; expectativa defraudada
Briol – frio
Burrié – macaco do nariz; porcaria alojada nas narinas
Boiça – estúpido
Bute – vamos
C
Cover – versão musical
Chavascal – fazer uma confusão; imundície
Chavalas – raparigas; moças
Cenaça – objecto ou situação invulgar: charro
Cotas – caretas; pessoal bota-de-elástico
Coirão – alguém muito pouco atractivo; aborto de pessoa
D
Desbunda – curtição total; saltar a tampa; estar a passar-se
E
Espiga – problema; obstáculo
Estrilhar – mandar vir; reclamar
Estucha – seca; chatice
F
Flipar – estar a passar-se; não estar em boas condições; apanhar com o efeito da droga
Fatelo – pessoa ou cena pirosa; algo que não está "in"
Ferrado – somítico; agarrado ao dinheiro; sovina
G
Griso – frio
Grisar – rir; passar-se
Groopie – fã que segue uma banda permanentemente
Garina – moça jovem; namorada
Gregoriar – vomitar
Granel – arranjar confusão; sarilhos
Glam – glamour; atitude charme
Guito – dinheiro
J
Janado – sob o efeito da droga
Judite – Polícia judiciária
K
Kosh – parte pequena; um bocado
M
Morfar – comer; enfardar
Mouros – o pessoal do Sul
Morcões – o pessoal do Norte
Marar – morrer; findar-se
Mosh – forma de dança
Monhé –indiano; árabe
Maca – confusão; sarilho
N
Népia – nada
P
Pívia – masturbação
Pedra – efeito da droga; algo de muito bom
People – pessoal; povo
Pita – rapariga jovem; pitinha
Penantes – ir a pé; ir a butes
Podre – alguém ou algo muito bom
Q
Queca – relação sexual
R
Rasca – cena manhosa; algo de pouca qualidade
S
Shota – a polícia
Shoegazzers – alguém demasiado preocupado consigo próprio
Sapar – ir com pressa; acelerar
T
Tanga – aldrabice; mentira
Tótil – porreiro; impecável
Tijolo – aparelhagem portátil
Tripar – passar-se, sobretudo com os efeitos da droga; inventar; divertir-se imenso
V
Vaipe – reacção inesperada; disposição inesperada
Vacarrussa – rapariga que vai com todos
X
Xonar – dormir; partir choco
*Nota: algumas destas palavras não têm regra específica para serem escritas, já que pertencem à tradição oral. Além disso, são "não aconselháveis a pessoas hiper-susceptíveis".
Apêndice do artigo "Guia para compreender os Sub-30" publicado em fins da década de 1990 no Notícias magazine
E como mudou muita coisa deste essa altura!
Aqui fica a lista de assuntos abordados nesse artigo: A - Arrumadores, Abrunhosa, Acid Jazz; B - Bunjee Jumping, Bips, Brit Pop, Beavis e Butthead, Blitz, Bandas de Garagem, BD; C - Cartão Jovem, Claques, Conta Jovem, Catarina Furtado, Clubes de Fãs, Corte de cabelo (filme), Cerveja; D - Dani (jogador), DJ, Deus, Daniel Sampaio; E - Erva, Ecstasy; F - Fast Food, Face (revista inglesa), fanzines; G - Galãs, Grunge (tipo de música), Geração Rasca (ou À Rasca); H - Hal Hartley; I - Indies (música alternativa), Internet; J - Juncos Silvestres (filme); João Vieira Pinto, Jungle (tipo de música); Jarvis Cocker; K - Kate Moss, Kids (filme); L - Londres; M - Mosh, MTV, MEC; N - NBK (filme), Noctívagos; O - One CK; P - Poppers ("droga"), Praia, Propinas, Preservativo; Q - Quentin Tarantino; R - Radical, Raves (festas), Ragazza (revista juvenil); S - Smashing Pumpkins, Super rock Super Bock, Subúrbios; T - Trekers, Tá-se Bêm, Tribos, Ténis Airwalk; "Todos Diferentes, todos Iguais", tatuagens; U - Ultras Portugal; W - Winona Ryder (actriz); X - XFM (estação de rádio), Xunga, X-files (série), Xutos & Pontapés; Y - Yuppies; Z - Zara
domingo, 24 de julho de 2011
As Palavras Fora de Moda
11 de Maio de 2003
As palavras que tendem a desaparecer estão ligadas a actividades manuais, como a olaria, a cestaria e a agricultura, ou a produtos e objectos que se extinguiram. São termos, regionais ou não, de conhecimento passivo, isto é, as pessoas conhecem-nos mas já não os usam no quotidiano.
A lista foi cedida pelo investigador João Saramago, da Universidade de Lisboa.
furgoneta - carrinha
boate - discoteca
embrulho - embalagem
soquetes - meias pequenas
merenda - lanche
xícara - chávena
travesseira - almofada
rebotalho - restos de alimentos
bucha - bocado de pão
(es)caleira - degraus
botequim - mercearia
açougue - talho
marchante - homem do talho
apoquentado - preocupado
atacar os sapatos - apertar os sapatos
quarteirão - medida de compra, 25 unidades
gaitada - gargalhada ou marrada
dar um zaipe - piscar o olho
(retirado do livro de estilo do jornal Público)
As palavras que tendem a desaparecer estão ligadas a actividades manuais, como a olaria, a cestaria e a agricultura, ou a produtos e objectos que se extinguiram. São termos, regionais ou não, de conhecimento passivo, isto é, as pessoas conhecem-nos mas já não os usam no quotidiano.
A lista foi cedida pelo investigador João Saramago, da Universidade de Lisboa.
furgoneta - carrinha
boate - discoteca
embrulho - embalagem
soquetes - meias pequenas
merenda - lanche
xícara - chávena
travesseira - almofada
rebotalho - restos de alimentos
bucha - bocado de pão
(es)caleira - degraus
botequim - mercearia
açougue - talho
marchante - homem do talho
apoquentado - preocupado
atacar os sapatos - apertar os sapatos
quarteirão - medida de compra, 25 unidades
gaitada - gargalhada ou marrada
dar um zaipe - piscar o olho
(retirado do livro de estilo do jornal Público)
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Expressões Correntes
• Arreganhar a cepa: rir
• Ouvidos de mercador: fazer de conta que não se ouve
• Que espiga: que aborrecimento!
• Mandar à fava: desprezar alguém
• Chegar a roupa ao pêlo: bater
• Lançar bitaites: dar opiniões sem que as peçam
• Népia: nada
• Acordar com o toco: acordar mal-disposto
• Despertar com a mosca: idem
• Não lembram ao careca: ideia absurda que não passa pela cabeça de ninguém
• Andar a bufo de gato: andar depressa
• Moer a mona: aborrecer
• Esgazeada: aparência esquisita
• Falcata: andar vestida de forma descuidada
• Gandim: vagabundo
• Zunir de papo: dizer mal de alguém
• Narça: bebedeira
• Chaveco velho: automóvel
• Dar ganas: irritar
• ... a porca torce o rabo: situação complicada
• Amolar de palanganas: fugir
• Dar de frosques: idem
• Pai de todos: o dedo do meio, o maior de todos
• Cara de cão de loiça: cara sem expressão
• Rabecada: raspanete
• Andar na giraldina: vadiar
• Destilar veneno: remoer uma ideia
• Meter o rabo entre as pernas: acobardar-se
• Negócio da China: assunto importante
• Cascar: dizer mal
• Arrear no cabaz: idem
• Macacos em loja de loiça: desastrados
• Abelhudo: metediço
• Matar o bichinho do ouvido: satisfazer a curiosidade
• Andar com o burro preso: andar mal-humorado
• De faca e calhau: pessoa vulgar
• Pôr o pé em ramo verde: sair dos eixos
• Arrebitar o cachimbo: responder arrogantemente
• Vergar a espinha: humilhar-se
• Mal-amanhada: mal feita, sem interesse
• Ver passarinho verde: ter uma surpresa agradável. Associa-se a namorado(a) novo(a)
• Fronha: cara
• Arranjar cabide: arranjar namorado
• Cantar de papo: gabar-se
• Rir até rebentar as ilhargas: rir com vontade
• Comer galinha e arrotar a peru: fazer-se passar pelo que não é
• Pintalgar a peruca: pintar o cabelo
• Beiças: lábios
• Boga: peixe
• José Maria Pincel: Zé Ninguém, pessoa sem importância
• Largar a labita: deixar em paz
• Desopilar o fígado: rir
• Cota: velha
• Esqueceram-se de deitar água no vaso: expressão usada para pessoas baixas
• Mânfios: pessoas sem escrúpulos e de carácter duvidoso
• Botar figura: com a mania das grandezas
• Não te cabe um chícharo: cheio de vaidade
• Dar um tranglo-mango: expressão usada para dizer que se vai ter um colapso
• Pendura: cônjuge
• Ter o estômago colado às costas: estar com fome
• Nicles: nada
• Empertigar-se: endireitar-se, pôr-se hirto
• Direitinho que nem um fuso: idem
• Não mexer uma palhinha: não fazer nada
• Ficar piursa: ficar irritada
• Esfalfar-se: trabalhar sem descanso
• Dar uma entaladela na carne: pré-cozinhar
• Falar para o Pinóquio: falar sozinho
• Não dar cavaco: não dar importância
• Ir ao campo: ir à casa-de-banho
• Fazer o ninho atrás da orelha: querer enganar alguém
• Não ter nascido ontem: não ser ingénuo
• Dar o bafo: morrer
• Ir para a salgadeira: idem
• Dar amargos de boca: dar problemas
• Encostar os ossos: ir para a cama
• Cair da tripeça: morrer de cansaço
• Aliviar a canastra: aliviar o trabalho
• Xarope de marmeleiro: pancada
• Tosca-marosca: rogar uma praga
Se quiser ficar "licenciado" neste tipo de vocabulário aconselhamos que passe os olhos pelo livro Dicionário de Expressões Correntes, de Orlando Neves, publicado pela Editorial Notícias
retirado de um artigo da revista Notícias Magazine
• Ouvidos de mercador: fazer de conta que não se ouve
• Que espiga: que aborrecimento!
• Mandar à fava: desprezar alguém
• Chegar a roupa ao pêlo: bater
• Lançar bitaites: dar opiniões sem que as peçam
• Népia: nada
• Acordar com o toco: acordar mal-disposto
• Despertar com a mosca: idem
• Não lembram ao careca: ideia absurda que não passa pela cabeça de ninguém
• Andar a bufo de gato: andar depressa
• Moer a mona: aborrecer
• Esgazeada: aparência esquisita
• Falcata: andar vestida de forma descuidada
• Gandim: vagabundo
• Zunir de papo: dizer mal de alguém
• Narça: bebedeira
• Chaveco velho: automóvel
• Dar ganas: irritar
• ... a porca torce o rabo: situação complicada
• Amolar de palanganas: fugir
• Dar de frosques: idem
• Pai de todos: o dedo do meio, o maior de todos
• Cara de cão de loiça: cara sem expressão
• Rabecada: raspanete
• Andar na giraldina: vadiar
• Destilar veneno: remoer uma ideia
• Meter o rabo entre as pernas: acobardar-se
• Negócio da China: assunto importante
• Cascar: dizer mal
• Arrear no cabaz: idem
• Macacos em loja de loiça: desastrados
• Abelhudo: metediço
• Matar o bichinho do ouvido: satisfazer a curiosidade
• Andar com o burro preso: andar mal-humorado
• De faca e calhau: pessoa vulgar
• Pôr o pé em ramo verde: sair dos eixos
• Arrebitar o cachimbo: responder arrogantemente
• Vergar a espinha: humilhar-se
• Mal-amanhada: mal feita, sem interesse
• Ver passarinho verde: ter uma surpresa agradável. Associa-se a namorado(a) novo(a)
• Fronha: cara
• Arranjar cabide: arranjar namorado
• Cantar de papo: gabar-se
• Rir até rebentar as ilhargas: rir com vontade
• Comer galinha e arrotar a peru: fazer-se passar pelo que não é
• Pintalgar a peruca: pintar o cabelo
• Beiças: lábios
• Boga: peixe
• José Maria Pincel: Zé Ninguém, pessoa sem importância
• Largar a labita: deixar em paz
• Desopilar o fígado: rir
• Cota: velha
• Esqueceram-se de deitar água no vaso: expressão usada para pessoas baixas
• Mânfios: pessoas sem escrúpulos e de carácter duvidoso
• Botar figura: com a mania das grandezas
• Não te cabe um chícharo: cheio de vaidade
• Dar um tranglo-mango: expressão usada para dizer que se vai ter um colapso
• Pendura: cônjuge
• Ter o estômago colado às costas: estar com fome
• Nicles: nada
• Empertigar-se: endireitar-se, pôr-se hirto
• Direitinho que nem um fuso: idem
• Não mexer uma palhinha: não fazer nada
• Ficar piursa: ficar irritada
• Esfalfar-se: trabalhar sem descanso
• Dar uma entaladela na carne: pré-cozinhar
• Falar para o Pinóquio: falar sozinho
• Não dar cavaco: não dar importância
• Ir ao campo: ir à casa-de-banho
• Fazer o ninho atrás da orelha: querer enganar alguém
• Não ter nascido ontem: não ser ingénuo
• Dar o bafo: morrer
• Ir para a salgadeira: idem
• Dar amargos de boca: dar problemas
• Encostar os ossos: ir para a cama
• Cair da tripeça: morrer de cansaço
• Aliviar a canastra: aliviar o trabalho
• Xarope de marmeleiro: pancada
• Tosca-marosca: rogar uma praga
Se quiser ficar "licenciado" neste tipo de vocabulário aconselhamos que passe os olhos pelo livro Dicionário de Expressões Correntes, de Orlando Neves, publicado pela Editorial Notícias
retirado de um artigo da revista Notícias Magazine
sábado, 21 de maio de 2011
Alentejo
PEQUENO DICIONÁRIO DE PALAVRAS ALENTEJANAS
Afossar ou Fossar– Remexer a terra com o focinho, os porcos.
Alqueive – Primeira lavoura feita no pousio.
Anaco – Cabrito de um ano.
Anojo/a– Bezerro/a de um ano.
Arganel – Argola de metal que se mete no focinho dos porcos ou toiros para melhor os dominar.
Argolar – Põr arganel no focinho dos porcos para evitar que fossem.
Arramadas – Casa com manjedouras onde se alimentavam as vacas.
Bolota – Fruto da azinheira utilizado para alimentação dos porcos e, nalguns casos, comestível pelos humanos. Fruto doce, tipo castanha.
Brincar – Colocar os brincos numerados nos animais.
Cangalhas – Instrumento para cargas colocado nos animais.
Canudos – Protecções de cana utilizadas nos dedos durante a ceifa manual para evitar cortes.
Chaparro – Azinheira (Baixo Alentejo).
Charcas – Pequenos lagos artificiais.
Chocalho – Espécie de campainha que se põe no pescoço de alguns animais para anunciar a sua presença, saber a sua localização.
Cocharro – Recipiente de cortiça utilizado para beber.
Desenchapotar – Tirar os paus mais grossos das enchapotas para lenha.
Enchapotas – Ramos finos resultantes da poda da azinheira. Enchocalhar – Pôr chocalho no gado.
Entrouxo – Coisa mal arranjada, torta, desalinhada.
Ferrar – Pôr ferraduras nos cavalos.
Gorpelha – Alcofa grande para carregar palha.
Gravato – Vara comprida, com gancho em ferro, utilizada para apanhar ovelhas pelas patas.
Lande – Fruto do sobreiro, amargo, só para alimentação dos porcos.
Limpeza do montado – Poda do montado.
Malato – Borrego entre um e os dois anos.
Moiral – Guarda do gado, pastor.
Montado - Terreno geralmente povoado de sobreiro e azinheira.
Monte – Herdade. Dentro da herdade o dizer "vou para o monte" é a deslocação para a parte urbana da propriedade.
Mulim – Protecção do pescoço para os animais.
Novilha – Vitela com dois anos.
Paisano – Touro de cobrição.
Pêgos – Poços de água nos percursos de rio que não secam no tempo de estio.
Pousio – Descanso dado a uma terra cultivada.
Prisco – Corredor em rede onde se põem ovelhas para ordenhar.
Safões ou Seifóes – Meias calças largas, feitas de pele, usadas pelos pastores.
Talego – Saco de pano com cordão de fechar.
Talhada – Rojões.
Tarro – Recipiente térmico de cortiça.
Tasneira — Planta esguia, verde, de flor amarela, antigamente usada nos currais e nas arramadas para atrair moscas.
Trazer a rojo – Trazer de rastos.
Trilho – Antiga máquina de debulhar puxada por animais.
Varrasco – Semental, porco macho reprodutor.
Apêndice ao artigo "25 horas num monte alentejano" de Eugénio Pinto, Noticias Magazine de 30/06/2002
Afossar ou Fossar– Remexer a terra com o focinho, os porcos.
Alqueive – Primeira lavoura feita no pousio.
Anaco – Cabrito de um ano.
Anojo/a– Bezerro/a de um ano.
Arganel – Argola de metal que se mete no focinho dos porcos ou toiros para melhor os dominar.
Argolar – Põr arganel no focinho dos porcos para evitar que fossem.
Arramadas – Casa com manjedouras onde se alimentavam as vacas.
Bolota – Fruto da azinheira utilizado para alimentação dos porcos e, nalguns casos, comestível pelos humanos. Fruto doce, tipo castanha.
Brincar – Colocar os brincos numerados nos animais.
Cangalhas – Instrumento para cargas colocado nos animais.
Canudos – Protecções de cana utilizadas nos dedos durante a ceifa manual para evitar cortes.
Chaparro – Azinheira (Baixo Alentejo).
Charcas – Pequenos lagos artificiais.
Chocalho – Espécie de campainha que se põe no pescoço de alguns animais para anunciar a sua presença, saber a sua localização.
Cocharro – Recipiente de cortiça utilizado para beber.
Desenchapotar – Tirar os paus mais grossos das enchapotas para lenha.
Enchapotas – Ramos finos resultantes da poda da azinheira. Enchocalhar – Pôr chocalho no gado.
Entrouxo – Coisa mal arranjada, torta, desalinhada.
Ferrar – Pôr ferraduras nos cavalos.
Gorpelha – Alcofa grande para carregar palha.
Gravato – Vara comprida, com gancho em ferro, utilizada para apanhar ovelhas pelas patas.
Lande – Fruto do sobreiro, amargo, só para alimentação dos porcos.
Limpeza do montado – Poda do montado.
Malato – Borrego entre um e os dois anos.
Moiral – Guarda do gado, pastor.
Montado - Terreno geralmente povoado de sobreiro e azinheira.
Monte – Herdade. Dentro da herdade o dizer "vou para o monte" é a deslocação para a parte urbana da propriedade.
Mulim – Protecção do pescoço para os animais.
Novilha – Vitela com dois anos.
Paisano – Touro de cobrição.
Pêgos – Poços de água nos percursos de rio que não secam no tempo de estio.
Pousio – Descanso dado a uma terra cultivada.
Prisco – Corredor em rede onde se põem ovelhas para ordenhar.
Safões ou Seifóes – Meias calças largas, feitas de pele, usadas pelos pastores.
Talego – Saco de pano com cordão de fechar.
Talhada – Rojões.
Tarro – Recipiente térmico de cortiça.
Tasneira — Planta esguia, verde, de flor amarela, antigamente usada nos currais e nas arramadas para atrair moscas.
Trazer a rojo – Trazer de rastos.
Trilho – Antiga máquina de debulhar puxada por animais.
Varrasco – Semental, porco macho reprodutor.
Apêndice ao artigo "25 horas num monte alentejano" de Eugénio Pinto, Noticias Magazine de 30/06/2002
quinta-feira, 12 de maio de 2011
Querónica
Não estranhem este título; o que se segue é uma crónica como outra qualquer, embora sobre um assunto novo (espero que apreciem este esforço). Chamo-lhe querónica para assinalar que a ortografia aqui utilizada para várias palavras nem sempre é a que julgo preferível, e é muitas vezes uma grafia com a qual ninguém, suponho, estará de acordo.Tudo começou quando, em plena segunda metade do século XX, fui deixando de ver a palavra Amsterdão, para cada vez mais ver Amesterdão. Ainda hoje não percebi quem introduziu aquele e. Eu tinha visto Amsterdão em mapas, tinha-a lido assim em textos de autores bem diferentes, mas todos cultores do bom português, de António José Saraiva a José Rentes de Carvalho, passando por Fernando Venâncio (que, além de usarem a palavra, conheceram a cidade e a origem do topónimo). Tinha-a visto nas primeiras edições em volume do Tratado de Amsterdão. De repente, outras edições do tratado passaram para Amesterdão. Mas mantêm Maastricht...
Quem serão os tratantes? Se calhar, alguém achou que aquelas duas consoantes seguidas fugiam ao aspecto «normal» da língua, e os parvos dos portugueses não conseguiam ler a palavra. Recordo que a 17/2/2001 J. Rentes de Carvalho me enviou um e-mail (só agora lhe agradeço) dizendo a certa altura: «(...) também eu aceito os aportuguesamentos seculares de Londres, Genebra e Terra Nova, etc.... mas tenho certa dificuldade com o aportuguesamento de Amsterdam e Rotterdam. Os nomes destas cidades derivam dos rios que junto delas passam (o Amstel e o Rotter), com o acrescento de 'dam' - o dique sobre que foram construídas.» Acrescentava que «dam» se pronuncia mais ou menos como «dame» e lembrava que não usamos Zandão nem Volendão (para Zaandam e Volendam), que «teriam tanto de bizarro como o Oclaoma e o Cansas que V. refere.»
Mais remotamente, lembro-me de ver «Afganistão» em mapas e livros. Hoje só vemos «Afeganistão», também com um ezinho para ajudar a soletrar a estranha palavra. Nestes fenómenos, estamos mais uma vez orgulhosamente (ou parvamente?) sós. Os espanhóis escrevem Amsterdam, tal como os franceses, os italianos, os ingleses e os alemães (entre outros, como os próprios holandeses). Os espanhóis escrevem Afganistán, os franceses, italianos e ingleses Afghanistan. As línguas latinas mais próximas dispensaram o e, e o mesmo fizeram com Amster(dam), que vem de Amstel e não de Amestel. Afghan (?) será de origem persa («(...)a palavra entrou em português por via fr. ou ingl., que a teriam recebido do persa, afgany» (José Pedro Machado, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa). Mas o desprezo pela etimologia, e o cepticismo quanto às capacidades dos leitores, levaram alguns à adopção de formas com o tal ezinho. Assim talvez nos reste, para haver maior coerência (ou mais algumas incoerências), propor outras remodelações ortográficas, ou melhor, ortugueráficas.
Não vale a pena ficarem afelitos nem perpelexos, e muito menos apopelécticos. Não se sintam menos flizes por isso. Porquê escrever afta, aftosa, naftalina, abstinência, aplicação, magma, Magda, inflexão, inflação, deflagrar, admissão, plágio, plasma, placebo, portfólio, sintagma, tecla, se podem escrever áfeta, afetosa, nafetalina, abestinência, apelicação, máguema, Mágueda (não existe Águeda?), infelexão, infelação, defelagrar, ademissão, pelágio, pelasma, pelacebo, portefólio, sintáguema, téquela? Não fiquem indiguenados com estas propostas. Entenderão alguns que uma querónica destas é pouco pdagógica, talvez até dmagógica, ou que conduz ao abessurdo. Mas eu, que não sou téquenico destas coisas (só de ideias gerais, como é próprio do jornalista), não me sinto desquelassificado por enunciá-las. Não ademito é que só em Portugal se saiba como escrever Amsterdão e Afganistão, dando mais uma vez lições ao mundo, tendo ou não feito com aperuveitamento a vetusta quarta quelasse. Os cidadãos não devem abester-se de refelectir sobre estas questões, apesar da compelexidade delas. E não devem ter compelexos quando as infeligirem a quem nem pensara no assunto. Se o infeluxo do inguelês afecta hoje os discursos correntes, devemos reagir com um português verenáculo («a nossa máguena língua portuguesa», como passaremos a escrever). Que raio de querónica - já vos estou a ouvir. Espero que meditem uns segundos sobre ela, agora que resolvi o perubelema da página em beranco, e muito me ademirará se a não zurzirem, em nome da sonoridade e da legibilidade. Pelize, como diria um inguelês. Não devemos ser compelacentes nem felexíveis perante abusos não autorizados. De fáqueto, a linguística é demasiado séria para ser confiada aos não linguistas, mas a invenção não foi ainda pruibida ou peruibida. Não é isso o perugueresso? Não dizem alguns que a escrita é apenas ou sobretudo a epiderme da língua, a sua vestimenta? Quanto à origem das palavras, quem é que sabe disso, ou quer saber disso para alguma coisa? Por mim, estou já inquelinado a aceitar mudanças derásticas. Agradecia era que os linguistas nos expelicassem os critérios das mudanças, porque isto é muito compelicado.
Francisco Bélard, Expresso, 26/01/2002
«Se o infeluxo do inguelês afecta hoje os discursos correntes, devemos reagir com um português verenáculo ('a nossa máguena língua portuguesa', como passaremos a escrever). Que raio de querónica - já vos estou a ouvir. Espero que meditem uns segundos sobre ela, agora que resolvi o perubelema da página em beranco, e muito me ademirará se a não zurzirem, em nome da sonoridade e da legibilidade. Pelize, como diria um inguelês. Não devemos ser compelacentes nem felexíveis perante abusos não autorizados.»
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Palavras Estrangeiras
Uma viagem ao Oclaoma, a São Diogo, a Wachintónia e outros lugares secretos da ortografia
Quando nesta casa [jornal Expresso] foi instalado um corrector ortográfico, apercebi-me de que essa criatura virtual, ou de «software» (que os franceses dizem «logiciel»), não conhecia ainda a diferença entre «corrector» e «corretor». Se calhar foi esse equipamento, entretanto melhorado, que na semana passada me obrigou a escrever «Alasca».
O horror aos estrangeirismos e aos vocábulos de outras línguas é corrente entre os que nos ensinam como se deve escrever português. No entanto, se lembrarmos que a língua portuguesa, oriunda do latim (hoje por muitos tratado como língua «estrangeira»), foi incorporando palavras e construções de desvairadas origens, e que é inevitável usarmos palavras realmente estrangeiras, somos levados a reacções mais flexíveis ou relativistas. De facto, o próprio «fundador da nacionalidade», D. Afonso Henriques, era «estrangeiro» de pai e mãe, e do seu bilhete de identidade, se existisse, talvez não constasse «nacionalidade portuguesa». Isto recorda-me a frase, ridícula mas judiciosa, «o Direito Romano começou por não existir» (tirada, salvo erro, de uma obra que foi famosa na Academia de Coimbra, O Livro do Dr. Assis). Há quem observe, aliás, que mesmo a palavra «estrangeirismo» é um...estrangeirismo («estrangeiro» vem do francês antigo «estranger», disse Raul Machado). Mas a atitude dominante entre os que escrevem vocabulários e prontuários é a de banir as palavras com aspecto estrangeiro, considerando que quem as usa é mau português, pouco patriota, quem sabe se mau chefe de família.
Nesta matéria, como noutras, conviria o equilíbrio e o bom senso. Evito o «constatar», o «é suposto» e o «face a» (contágios do francês e do inglês), evito construções brasileiras que não nos façam falta (hoje são tantas que nem dou exemplos), mas não sou purista. Por exemplo, não acho boa ideia a tentativa de aportuguesar hoje todos os topónimos. Aceito, claro, os aportuguesados há séculos, como Londres, Genebra ou Terra Nova (e não Newfoundland). Mas não escreveria Alasca, Cansas ou Oclaoma para designar estados norte-americanos. Tal como não escrevero «Quente» ou «Sussexe» para designar condados ingleses (e aqui estou na boa companhia de José Pedro Machado, que usou Kent e Sussex).
A quem quiser fazer o exercício, sugiro que aportuguesem Iowa, Washington, Wyoming, Idaho, Wisconsin, Kentucky, Tennessee, Delaware, New Hampshire, Rhode Island... Bem sei que alguns já o tentaram, mas o resultado é muito discutível. Para Washington chegou-se a Wachintónia, Vachintónia ou quejandos - ou seja, chegou-se demasiado longe. Alasca, desculpem, faz-me lembrar «A lasca», a pedra lascada, as grutas de Lascaux, o Paleolítico e outros vestígios da cadeira de Pré-História. E qual é a vantagem de escrever Massachussetes? Com os estados de nome hispânico o caso é outro: ou não há lugar a portuguesamento (como em Nevada ou Florida), ou basta pôr um acento (como em Califórnia), ou traduzir o adjectivo e pôr um acento no substantivo (como em Novo México).
Creio, pois, que a dita prática é um desperdício de tempo e de energias, e aumenta em regra a ininteligibilidade. Deixaríamos de perceber grande parte dos mapas, as indicações nas estradas e nos aeroportos, etc. Além disso, é cansativo escrever Cansas, e a palavra Arcansas faz-me arquejar. E que fazer de Pennsylvania? Os espertos (que se diriam «experts» não fora o estrangeirismo) proclamariam, triunfantes, «Pensilvânia». Ora acontece que o primeiro elemento da palavra não é Pen, mas Penn (de William Penn). Quanto ao Havai, é curioso que o tenhamos aportuguesado, quando os norte-americanos, que tardiamente se apoderaram do arquipélago, o designam por «Hawaii», termo que não tem nada de inglês. Quando os nossos prontuários explicam «Oclaoma» (quem mais no planeta escreve assim?) como «equivalente do inglês Oklahoma», pergunto: será inglês, ou procede de um dos idiomas ameríndios (esse estado tem origem no «Indian Territory»)?
Passa-se idêntico fenómeno com as cidades norte-americanas: se os nomes espanhóis como San Francisco, San Diego, Sacramento, Los Angeles, etc., não foram alterados pelos próprios «gringos» que ocuparam a Califórnia, por que carga de água ou de nacionalismo equivocado os devemos nós transformar em São Francisco, São Diogo ou Os Anjos?
Francisco Belard, Expresso, 10/02/2001
Transcrito do site Ciberdúvidas / Controvérsias / 16/2/2001
Quando nesta casa [jornal Expresso] foi instalado um corrector ortográfico, apercebi-me de que essa criatura virtual, ou de «software» (que os franceses dizem «logiciel»), não conhecia ainda a diferença entre «corrector» e «corretor». Se calhar foi esse equipamento, entretanto melhorado, que na semana passada me obrigou a escrever «Alasca».
O horror aos estrangeirismos e aos vocábulos de outras línguas é corrente entre os que nos ensinam como se deve escrever português. No entanto, se lembrarmos que a língua portuguesa, oriunda do latim (hoje por muitos tratado como língua «estrangeira»), foi incorporando palavras e construções de desvairadas origens, e que é inevitável usarmos palavras realmente estrangeiras, somos levados a reacções mais flexíveis ou relativistas. De facto, o próprio «fundador da nacionalidade», D. Afonso Henriques, era «estrangeiro» de pai e mãe, e do seu bilhete de identidade, se existisse, talvez não constasse «nacionalidade portuguesa». Isto recorda-me a frase, ridícula mas judiciosa, «o Direito Romano começou por não existir» (tirada, salvo erro, de uma obra que foi famosa na Academia de Coimbra, O Livro do Dr. Assis). Há quem observe, aliás, que mesmo a palavra «estrangeirismo» é um...estrangeirismo («estrangeiro» vem do francês antigo «estranger», disse Raul Machado). Mas a atitude dominante entre os que escrevem vocabulários e prontuários é a de banir as palavras com aspecto estrangeiro, considerando que quem as usa é mau português, pouco patriota, quem sabe se mau chefe de família.
Nesta matéria, como noutras, conviria o equilíbrio e o bom senso. Evito o «constatar», o «é suposto» e o «face a» (contágios do francês e do inglês), evito construções brasileiras que não nos façam falta (hoje são tantas que nem dou exemplos), mas não sou purista. Por exemplo, não acho boa ideia a tentativa de aportuguesar hoje todos os topónimos. Aceito, claro, os aportuguesados há séculos, como Londres, Genebra ou Terra Nova (e não Newfoundland). Mas não escreveria Alasca, Cansas ou Oclaoma para designar estados norte-americanos. Tal como não escrevero «Quente» ou «Sussexe» para designar condados ingleses (e aqui estou na boa companhia de José Pedro Machado, que usou Kent e Sussex).
A quem quiser fazer o exercício, sugiro que aportuguesem Iowa, Washington, Wyoming, Idaho, Wisconsin, Kentucky, Tennessee, Delaware, New Hampshire, Rhode Island... Bem sei que alguns já o tentaram, mas o resultado é muito discutível. Para Washington chegou-se a Wachintónia, Vachintónia ou quejandos - ou seja, chegou-se demasiado longe. Alasca, desculpem, faz-me lembrar «A lasca», a pedra lascada, as grutas de Lascaux, o Paleolítico e outros vestígios da cadeira de Pré-História. E qual é a vantagem de escrever Massachussetes? Com os estados de nome hispânico o caso é outro: ou não há lugar a portuguesamento (como em Nevada ou Florida), ou basta pôr um acento (como em Califórnia), ou traduzir o adjectivo e pôr um acento no substantivo (como em Novo México).
Creio, pois, que a dita prática é um desperdício de tempo e de energias, e aumenta em regra a ininteligibilidade. Deixaríamos de perceber grande parte dos mapas, as indicações nas estradas e nos aeroportos, etc. Além disso, é cansativo escrever Cansas, e a palavra Arcansas faz-me arquejar. E que fazer de Pennsylvania? Os espertos (que se diriam «experts» não fora o estrangeirismo) proclamariam, triunfantes, «Pensilvânia». Ora acontece que o primeiro elemento da palavra não é Pen, mas Penn (de William Penn). Quanto ao Havai, é curioso que o tenhamos aportuguesado, quando os norte-americanos, que tardiamente se apoderaram do arquipélago, o designam por «Hawaii», termo que não tem nada de inglês. Quando os nossos prontuários explicam «Oclaoma» (quem mais no planeta escreve assim?) como «equivalente do inglês Oklahoma», pergunto: será inglês, ou procede de um dos idiomas ameríndios (esse estado tem origem no «Indian Territory»)?
Passa-se idêntico fenómeno com as cidades norte-americanas: se os nomes espanhóis como San Francisco, San Diego, Sacramento, Los Angeles, etc., não foram alterados pelos próprios «gringos» que ocuparam a Califórnia, por que carga de água ou de nacionalismo equivocado os devemos nós transformar em São Francisco, São Diogo ou Os Anjos?
Francisco Belard, Expresso, 10/02/2001
Transcrito do site Ciberdúvidas / Controvérsias / 16/2/2001
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Palavras em Roda Livre
PALAVRAS DE QUE GOSTA MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA
Blog Roda Livre de Jorge Mourinha
1 - Lambisgóia
2 - Esdrúxulo
3 - Troglodita
4 - Emplastro
5 - Obnóxio
6 - Gadelhudo (ou, na grafia alternativa, guedelhudo)
7 - Homúnculo
8 - Bardajona
9 - Vil
10 - Obstipação
11 - Torpe
12 - Barregã
13 - Esbirro
14 - Tonitruante
15 - Onanismo
16 - Energúmeno
17 - Gnu
18 - Mastronço
19 - Ósculo
20 - Marsupial
21 - Pestilento
22 - Embasbacado
23 - Antipirético
24 - Canhestro
25 - Salafrário
26 - Micose
27 - Piaçaba
28 - Escarafunchar
29 - Alavancar
30 - Macambúzio
31 - Dispéptico
32 - Solípede
33 - Prolegómeno
34 - Hirsuto
35 - Despautério
36 - Sodomia
37 - Atávico
38 - Patusco
39 - Jactancioso
40 - Cosmopolita
41 - Adstringência
42 - Ignóbil
43 - Macacoa
44 - Sabujo
45 - Desmultiplicação
46 - Encarquilhado
47 - Esfíncter
48 - Autóctone
48 - Pruriginoso
49 - Apoplexia
50 - Mictar
51 - Felpudo
52 - Cacholada
53 - Percevejo
54 - Pitosga
55 - Escanzelada
56 - Ultramarino
57 - Esfíncter
58 - Imiscuir
59 - Camundongo
60 - Filisteu
61 - Obsolescência
62 - Macambúzio
63 - Opróbrio
64 - Lambuzar
65 - Volumetria
66 - Otário
67 - Protozoário
68 - Alvitrar
69 - Plantígrado
70 - Abespinhado
74 - Escanifobética
75 - Estelionatária
76 - Antropófago
77 - Cavernícola
78 - Concupiscência
79 - Esternutação
80 - Somítico
81 - Sabujo
82 - Hirsuto
83 - Patibular
84 - Ouriçado
(encontramos 82 palavras, a 48 está em duplicado e falta da 71 à 73)
Blog Roda Livre de Jorge Mourinha
1 - Lambisgóia
2 - Esdrúxulo
3 - Troglodita
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5 - Obnóxio
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7 - Homúnculo
8 - Bardajona
9 - Vil
10 - Obstipação
11 - Torpe
12 - Barregã
13 - Esbirro
14 - Tonitruante
15 - Onanismo
16 - Energúmeno
17 - Gnu
18 - Mastronço
19 - Ósculo
20 - Marsupial
21 - Pestilento
22 - Embasbacado
23 - Antipirético
24 - Canhestro
25 - Salafrário
26 - Micose
27 - Piaçaba
28 - Escarafunchar
29 - Alavancar
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31 - Dispéptico
32 - Solípede
33 - Prolegómeno
34 - Hirsuto
35 - Despautério
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37 - Atávico
38 - Patusco
39 - Jactancioso
40 - Cosmopolita
41 - Adstringência
42 - Ignóbil
43 - Macacoa
44 - Sabujo
45 - Desmultiplicação
46 - Encarquilhado
47 - Esfíncter
48 - Autóctone
48 - Pruriginoso
49 - Apoplexia
50 - Mictar
51 - Felpudo
52 - Cacholada
53 - Percevejo
54 - Pitosga
55 - Escanzelada
56 - Ultramarino
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61 - Obsolescência
62 - Macambúzio
63 - Opróbrio
64 - Lambuzar
65 - Volumetria
66 - Otário
67 - Protozoário
68 - Alvitrar
69 - Plantígrado
70 - Abespinhado
74 - Escanifobética
75 - Estelionatária
76 - Antropófago
77 - Cavernícola
78 - Concupiscência
79 - Esternutação
80 - Somítico
81 - Sabujo
82 - Hirsuto
83 - Patibular
84 - Ouriçado
(encontramos 82 palavras, a 48 está em duplicado e falta da 71 à 73)
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Outra Pronúncia
A insistência de um certo humor televisivo lisboeta na exploração das particularidades fonéticas do modo de falar do Porto é eficaz como caricatura, mas tem o inconveniente de apresentar uma visão redutora de um fenómeno extensível a todo o País, e não exclusivo de uma dada região. O facto de ser o Porto a fonte inspiradora da graça a partir dos sons das palavras poderia ter várias explicações de raízes sociológicas, logo a começar pela natural rivalidade entre os dois principais centros urbanos, com passagem pela eterna questão da norma imposta pelo poder.
Fosse o Porto a sede do poder político e dos grandes órgãos de comunicação social difusores daquilo que se supõe ser o modo correcto de falar e, por certo, lá estariam os lisboetas a ser massacrados pelo modo como, por exemplo, acentuam o «u» em final de palavra.
Gil Vicente, no auto pastoril A Visitação, para fazer graça junto do rei imitava o falar das beiras, região onde, na altura, se situava algum do contra-poder à corte situada na capital. Os linguistas e foneticistas costumam relativizar a importância destas questões, e Armando Lacerda, considerado um dos maiores foneticistas da língua portuguesa, duriense assumido, gabava-se em Coimbra, onde dava aulas, de pertencer a uma cidade que tinha honra em guardar o seu sotaque. Ele próprio não fazia qualquer esforço para amenizar os ditongos.
Mais recentemente, Mário Vilela, catedrático da Faculdade de Letras do Porto e um dos grandes especialistas nesta área, fez uma experiência junto do corpo docente da escola, para avaliar até que ponto se verificava ou não, num sector mais culto, um assinalável afastamento dos traços distintivos do característico falar do Porto. O resultado foi elucidativo: a generalidade dos professores naturais do Porto assume com naturalidade que na sua linguagem estão presentes os traços identificadores da fonética portuense. Mário Vilela afirma que esta situação é reveladora da «auto-estima que as pessoas sentem pelos seus modos de ser, viver e falar».
O que distingue o falar do Porto, mais que a maior ou menor criatividade de algumas expressões populares - aliás presente em todo o País - é a fonética. Os órgãos que articulam a fala dos portuenses são rigorosamente iguais aos de qualquer português. Contudo, talvez por influência de réstias de uma língua anterior ao galaico-português, no Porto os «b», por exemplo, são mais fortes e sobrepõem-se aos «v». Daí resulta o «binhu» (vinho), «barãnda» (varanda), «biána» (Viana) ou «bibu» (vivo).
Os ditongos «ão» ou «õe» são muito acentuados e prolongam-se mais que em outras regiões. Para dizer limão, irmão, Bolhão ou cartão, um habitante do Grande Porto pode transformar um dissílabo num trissílabo ao acrescentar um «e» fechado e anasalado no final da palavra. A transcrição fonética permitiria entender este fenómeno em toda a sua extensão, mas não é perceptível pelo comum dos leitores, pelo que nos dispensamos de avançar aqui com um exercício quase académico.
É possível detectar fenómenos semelhantes em palavras como fonte ou morto. Um portuense de Miragaia ou da Sé - áreas onde se mantém com mais força este traço de identidade - acrescentará uma espécie de «u» antes dos «o» fechados de fonte e morto. No limite, uma palavra como ponte quase parecerá «põente», na boca de um residente na Bainharia.
E aqui temos uma outra faceta. Em palavras onde se encontram as palatais «lh», como telha ou palha, teremos «teilha» ou «pailha», como «beiju» para referir «vejo». Estes exemplos ilustram um modo de falar que tem vindo a perder-se, devido à influência normalizadora da televisão e da rádio. Ninguém espere, por isso, chegar ao Porto e tropeçar em portuenses que trocam os «b» pelos «v» e apresentam um sotaque muito cerrado e acentuado. Uma outra particularidade do falar do Porto, e nem sempre entendido para quem chega, é o modo descomplexado e até com sentido majorativo como são utilizadas palavras e expressões que noutros locais são tidos como grandes palavrões. Não é invulgar ouvir uma amigo dizer a outro, dando-lhe uma palmada nas costas: «Anda cá, meu filho da puta...» Tal como não é uma coisa do outro mundo presenciar uma mãe a regalar-se com uma tropelia do filho, chamando-lhe carinhosamente «cabrão do caraças».
Este jeito singular de criar expressões estranhas, com frequência brejeiras, muito explorado nos bairros populares, não tem qualquer carga negativa e constitui, muitas vezes, um factor de socialização. Nas duas caixas inventariamos algumas frases e expressões idiomáticas utilizadas no Porto ou na sua área de influência. Como se vê, há uma preponderância de frases e termos que jamais teriam lugar no baile de debutantes do Clube Portuense. Algumas são inequivocamente do Porto, outras terão sido assimiladas, mas em nenhum lado são ditas como aqui. E é esse modo muito particular de dizer que faz com que se tornem propriedade da comunidade de falantes portuenses.
Texto de VALDEMAR CRUZ, Expresso, 31/10/1998
VOCABULÁRIO:
Aloquete - Cadeado
Azeiteiro - Aquele que vive à custa de prostitutas
Benha - Diz-se repetidas vezes, e é o grito de guerra dos arrumadores de carros para assinalar um lugar vago entre muitos outros disponíveis. É um «beinha» que prosaicamente significa «venha»
Botar - Pôr, deitar
Breca - Cãibra
Burgesso - Aquele que, além de burro, é teimoso
Canalha - Miúdos, catraios
Calcantes - Sapatos
Cimbalino - Café
Carago - Na verdade é caraças o que mais se utiliza para referir de forma metafórica o órgão sexual masculino
Cruzeta - Cabide
Chuço - Guarda-chuva
Estrugido - Refogado
Fino - Cerveja servida a copo
Infusa - Jarro
Moina - Polícia
Molete - Pão, carcaça
Mor - Termo utilizado pelas vendedeiras. Abreviatura de «amor»; forma carinhosa de chamar o cliente
Morcão - Palerma
Perseguida - Órgão sexual da mulher
Sameira - Cápsula de refrigerante
Vagem - Feijão verde
(Apêndice ao artigo de VALDEMAR CRUZ, Expresso, 31/10/1998)
EXPRESSÕES IDIOMÁTICAS:
Chá de Bico - Clister
Deu-lhe a filoxera - Desmaiou
Dar corda aos vitorinos - Andar rápido, fugir
Dói-me o garfeiro todo - Doem-me os dentes
Estar com os vitorinos encharcados - Estar bêbado
Estar de beiços - estar amuado
Falar ao microfone - O que é suposto Monica Lewinsky ter feito a Clinton e que o Presidente dos EUA alega não ter sido uma relação sexuaL
Foi fazer tijolos - Morreu
Foi medir caixotes - Morreu
Mandar uma traulitada directa à caixa dos fusíveis - Dar um murro nas ventas, quer dizer, no focinho, ou seja, na cabeça
Narizinho de cheiro ou de caticha - Diz-se de alguém que se ofende facilmente
Secou-se-lhe o céu da boca - Morreu
Vai no Batalha - Como quem diz: isso é filme; forma mais prosaica de dizer que é mentira
Vai à postura - Vai até à praça de taxi
Via de serventia - Expressão das mulheres do povo na sua relação com os ginecologistas
(Apêndice ao artigo de VALDEMAR CRUZ, Expresso, 31/10/1998)
http://www.ciberduvidas.com/diversidades.php?rid=1014
Fosse o Porto a sede do poder político e dos grandes órgãos de comunicação social difusores daquilo que se supõe ser o modo correcto de falar e, por certo, lá estariam os lisboetas a ser massacrados pelo modo como, por exemplo, acentuam o «u» em final de palavra.
Gil Vicente, no auto pastoril A Visitação, para fazer graça junto do rei imitava o falar das beiras, região onde, na altura, se situava algum do contra-poder à corte situada na capital. Os linguistas e foneticistas costumam relativizar a importância destas questões, e Armando Lacerda, considerado um dos maiores foneticistas da língua portuguesa, duriense assumido, gabava-se em Coimbra, onde dava aulas, de pertencer a uma cidade que tinha honra em guardar o seu sotaque. Ele próprio não fazia qualquer esforço para amenizar os ditongos.
Mais recentemente, Mário Vilela, catedrático da Faculdade de Letras do Porto e um dos grandes especialistas nesta área, fez uma experiência junto do corpo docente da escola, para avaliar até que ponto se verificava ou não, num sector mais culto, um assinalável afastamento dos traços distintivos do característico falar do Porto. O resultado foi elucidativo: a generalidade dos professores naturais do Porto assume com naturalidade que na sua linguagem estão presentes os traços identificadores da fonética portuense. Mário Vilela afirma que esta situação é reveladora da «auto-estima que as pessoas sentem pelos seus modos de ser, viver e falar».
O que distingue o falar do Porto, mais que a maior ou menor criatividade de algumas expressões populares - aliás presente em todo o País - é a fonética. Os órgãos que articulam a fala dos portuenses são rigorosamente iguais aos de qualquer português. Contudo, talvez por influência de réstias de uma língua anterior ao galaico-português, no Porto os «b», por exemplo, são mais fortes e sobrepõem-se aos «v». Daí resulta o «binhu» (vinho), «barãnda» (varanda), «biána» (Viana) ou «bibu» (vivo).
Os ditongos «ão» ou «õe» são muito acentuados e prolongam-se mais que em outras regiões. Para dizer limão, irmão, Bolhão ou cartão, um habitante do Grande Porto pode transformar um dissílabo num trissílabo ao acrescentar um «e» fechado e anasalado no final da palavra. A transcrição fonética permitiria entender este fenómeno em toda a sua extensão, mas não é perceptível pelo comum dos leitores, pelo que nos dispensamos de avançar aqui com um exercício quase académico.
É possível detectar fenómenos semelhantes em palavras como fonte ou morto. Um portuense de Miragaia ou da Sé - áreas onde se mantém com mais força este traço de identidade - acrescentará uma espécie de «u» antes dos «o» fechados de fonte e morto. No limite, uma palavra como ponte quase parecerá «põente», na boca de um residente na Bainharia.
E aqui temos uma outra faceta. Em palavras onde se encontram as palatais «lh», como telha ou palha, teremos «teilha» ou «pailha», como «beiju» para referir «vejo». Estes exemplos ilustram um modo de falar que tem vindo a perder-se, devido à influência normalizadora da televisão e da rádio. Ninguém espere, por isso, chegar ao Porto e tropeçar em portuenses que trocam os «b» pelos «v» e apresentam um sotaque muito cerrado e acentuado. Uma outra particularidade do falar do Porto, e nem sempre entendido para quem chega, é o modo descomplexado e até com sentido majorativo como são utilizadas palavras e expressões que noutros locais são tidos como grandes palavrões. Não é invulgar ouvir uma amigo dizer a outro, dando-lhe uma palmada nas costas: «Anda cá, meu filho da puta...» Tal como não é uma coisa do outro mundo presenciar uma mãe a regalar-se com uma tropelia do filho, chamando-lhe carinhosamente «cabrão do caraças».
Este jeito singular de criar expressões estranhas, com frequência brejeiras, muito explorado nos bairros populares, não tem qualquer carga negativa e constitui, muitas vezes, um factor de socialização. Nas duas caixas inventariamos algumas frases e expressões idiomáticas utilizadas no Porto ou na sua área de influência. Como se vê, há uma preponderância de frases e termos que jamais teriam lugar no baile de debutantes do Clube Portuense. Algumas são inequivocamente do Porto, outras terão sido assimiladas, mas em nenhum lado são ditas como aqui. E é esse modo muito particular de dizer que faz com que se tornem propriedade da comunidade de falantes portuenses.
Texto de VALDEMAR CRUZ, Expresso, 31/10/1998
VOCABULÁRIO:
Aloquete - Cadeado
Azeiteiro - Aquele que vive à custa de prostitutas
Benha - Diz-se repetidas vezes, e é o grito de guerra dos arrumadores de carros para assinalar um lugar vago entre muitos outros disponíveis. É um «beinha» que prosaicamente significa «venha»
Botar - Pôr, deitar
Breca - Cãibra
Burgesso - Aquele que, além de burro, é teimoso
Canalha - Miúdos, catraios
Calcantes - Sapatos
Cimbalino - Café
Carago - Na verdade é caraças o que mais se utiliza para referir de forma metafórica o órgão sexual masculino
Cruzeta - Cabide
Chuço - Guarda-chuva
Estrugido - Refogado
Fino - Cerveja servida a copo
Infusa - Jarro
Moina - Polícia
Molete - Pão, carcaça
Mor - Termo utilizado pelas vendedeiras. Abreviatura de «amor»; forma carinhosa de chamar o cliente
Morcão - Palerma
Perseguida - Órgão sexual da mulher
Sameira - Cápsula de refrigerante
Vagem - Feijão verde
(Apêndice ao artigo de VALDEMAR CRUZ, Expresso, 31/10/1998)
EXPRESSÕES IDIOMÁTICAS:
Chá de Bico - Clister
Deu-lhe a filoxera - Desmaiou
Dar corda aos vitorinos - Andar rápido, fugir
Dói-me o garfeiro todo - Doem-me os dentes
Estar com os vitorinos encharcados - Estar bêbado
Estar de beiços - estar amuado
Falar ao microfone - O que é suposto Monica Lewinsky ter feito a Clinton e que o Presidente dos EUA alega não ter sido uma relação sexuaL
Foi fazer tijolos - Morreu
Foi medir caixotes - Morreu
Mandar uma traulitada directa à caixa dos fusíveis - Dar um murro nas ventas, quer dizer, no focinho, ou seja, na cabeça
Narizinho de cheiro ou de caticha - Diz-se de alguém que se ofende facilmente
Secou-se-lhe o céu da boca - Morreu
Vai no Batalha - Como quem diz: isso é filme; forma mais prosaica de dizer que é mentira
Vai à postura - Vai até à praça de taxi
Via de serventia - Expressão das mulheres do povo na sua relação com os ginecologistas
(Apêndice ao artigo de VALDEMAR CRUZ, Expresso, 31/10/1998)
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sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Palavras
A edição de 10/01/1998 do jornal Expresso, a comemorar 25 Anos nesse ano, incluía uma lista de palavras que tinham entrado na nossa vida nesse período:Acção humanitária – Operação através da qual se enviam tropas de forma a ajudar determinado país a ultrapassar uma crise, ainda que esse país não queira. Há anos chamava-se ataque imperialista, manobra de soberania ou outra denominação qualquer mais apropriada.
Airbag – Uma das inúmeras medidas de segurança na condução, que tem feito baixar o número de mortos nas estradas de todo o mundo, à excepção de Portugal.
Ambientalistas – Militantes de organizações que defendem o ambiente, criadas a partir do momento em que se percebeu que o Mundo em geral estava a ficar com mau ambiente, não no sentido figurado tradicional mas no sentido literal.
Antitabagista – Fanático contra os cigarros. Normalmente fumou durante 20 anos e, num momento qualquer da sua vida, teve a fantástica revelação de que isso lhe estava a fazer mal.
Arrumadores – Especialistas que nos indicam um lugar para estacionar que nós já tínhamos visto, em troca de não nos ameaçarem o carro no caso de lhes darmos 100 escudos.
Asa-delta – Espécie de planador em que a carlinga é formada pelo corpo do corajoso que veste as asas.
Bebé-proveta – Nascituro proveniente de uma complexa reacção química milenarmente realizada no útero, mas que o avanço da Ciência permitiu realizar num tubo de ensaio ou proveta. O resultado é rigorosamente igual.
Biodegradável – Lixo não poluente, que se distingue do poluente por dizer isso mesmo na embalagem. Até à invenção do plástico tudo era biodegradável, mas só quando se inventou o que não o era é que houve necessidade de inventar uma palavra para caracterizar o que era.
Bodyboard – Desporto que consiste em vir sobre as ondas até à praia deitado numa pequena prancha. O mais extraordinário, no entanto, é que, ao contrário do que é comum, gasta-se muito mais tempo a ir para lá do que a vir para cá.
Bodybuilding – A arte de pôr músculos onde não faziam falta nenhuma.
Branqueamento – Acção através da qual o carácter ou o dinheiro de uma pessoa deixam de ser suspeitos para passarem a ser socialmente considerados. Apesar de a coisa ser antiga, deixou de ser feita por grupos de «gansgters» e/ou por rapaziada dos jornais, para ficar a cargo de grupos empresariais com sede em «off-shores» e agências de imagem.
BTT – Abreviatura de bicicleta todo-o-terreno. Sendo a bicicleta o único veículo em que a besta puxa sentada, esta é bastante mais complexa do que as vulgares, embora não tenha resolvido totalmente a maçada de se ter de puxar por ela.
Bug – Em inglês é um insecto, mas em português significa um erro de programação em computador. Aquele que devemos culpar quando se diz que a culpa é dos computadores (v.g. impostos, extractos bancários,contas de telefone, etc.).
Caturreira – Expressão oca usada por cabeças similares.
Cavaquismo – Período da nossa história correspondente aos 10 anos de governo de Cavaco Silva, do qual não estamos suficientemente distanciados para dizer o que foi.
CD – Quer dizer disco compacto, mas, como as novas siglas são em inglês, lêem-se ao contrário. Veio substituir os velhos discos de vinil, com a vantagem de não se riscarem e de a qualidade de som ser muito melhor. Claro que isso trouxe engulhos a certos cantores de quem se julgava que o problema era o disco e não a voz, mas não há bela sem senão.
CD-i – Um disco compacto, mas interactivo, e daí o i. A interactividade não chegou, no entanto, ao ponto de conseguirmos educar os cantores pimba a não dizerem tantos palavrões. Lá chegaremos, com a ajuda da tecnologia...
CD-ROM – Ainda um disco... adivinhem: nem mais, compacto! Mas este faz tudo o que os outros fazem e mais alguma coisa, além de ser lido por um PC multimédia, que mais à frente verão o que é, que a gente não pode já dizer tudo!
Check up – Série de exames médicos que devem ser regularmente feitos. Não confundir com Ketchup, o célebre molho de tomate. Estas duas palavras apenas têm em comum o facto de raramente serem ditas em português.
Ciberespaço – O único espaço que não ocupa lugar, sendo, pois, como o saber. Universo virtual que fica algures no meio de uma rede de comunicação entre computadores. No futuro, será usado como actualmente se utiliza a palavra espaço, e nas discussões de casal dir-se-á: «Tens de compreender que não podes estar sempre a utilizar o computador. Eu preciso do meu próprio ciberespaço.»
Clone – Fotocópia genética. Um filho de si próprio. A negação da palavra mãe e pai (e, aqui entre nós, isto deve ser mesmo o princípio do fim disto tudo, quer dizer, o fim do mundo).
Competitividade – Característica que as empresas e marcas descobriram que deveriam ter, mesmo quando já a tinham, e que consiste em dar a ideia de que são melhores do que as outras. Nada que a Pasta Medicinal Couto não fizesse, embora com outro nome, quando punha o artista português (para os novos que não se lembram, era um africano) a rodopiar com uma cadeira entre os dentes. As outras pastas de dentes, por falta de competitividade, nunca arranjaram artista semelhante.
Computador pessoal – O mesmo que PC, só que, dito em português, ficaria com as iniciais CP, e, portanto, demasiado semelhante aos caminhos-de-ferro, cuja rede, mesmo assim, é mais utilizada que a do Partido Comunista (PC).
Consultoria – Acção através da qual um grupo de pessoas (consultores) analisa uma empresa e propõe soluções para os problemas que, se não existissem, seria o fim das consultorias.
Crack – Droga sintética, melhor e mais potente, uma vez que é muito mais mortífera.
Curtir – Gozar. Palavra que veio juntamente com a primeira telenovela e por aqui ficou, embora não viesse mal nenhum ao mundo se voltasse lá para donde veio.
Dealer – Na origem, um comerciante inglês ou americano. Em português, fornecedor de droga, apesar de estes, no nosso país e em geral, não serem nem americanos nem ingleses.
Descartável – Palavra que, por incrível que pareça, não tem origem nas teorias de Descartes, mas que significa apenas que é de usar e deitar fora (embora nem tudo o que seja de usar e deitar fora seja considerado descartável, de que são exemplo a pastilha elástica e o preservativo). Já se for uma lâmina de barbear, umas fraldas ou uns talheres de plástico, a palavra utiliza-se. Enfim, não parece haver grande critério nisto, mas a culpa não é nossa.
Deslocalização – Algo que os «ratinhos», os célebres trabalhadores da Beira Alta que nos anos 50 iam trabalhar para o Alentejo, não sabiam que existia, caso contrário teriam pedido aumento. Ou então, que os campos alentejanos se deslocalizassem para a Beira, uma vez que a mão-de-obra era ali mais barata.
Desportos radicais – Conjunto de novos desportos que os mais novos fazem por gosto de aventura e os mais velhos por gosto de parecerem mais novos. Distinguem-se dos desportos «tout-court» por não serem moderados, como o rugby, o boxe ou a maratona.
Digital – Que funciona na base de dígitos, ou seja, tudo à base dos zeros e uns. Depois queixam-se de que os miúdos sabem cada vez menos matemática...
Disquete – Pequeno disco que se mete num PC para fazer correr os programas nele inseridos. Só mesmo quem já teve esta experiência única pode perceber o que aqui está escrito.
Downsizing – A única cura de emagrecimento na qual quem come menos são os outros. Uma forma curiosa, bizarra e estrangeirada de dizer que vai haver despedimentos porque a empresa tem de ser mais pequena para que possa manter a sua competitividade.
Eanismo – Período da nossa história correspondente aos 10 anos de presidência do general Eanes, e do qual estamos suficientemente distanciados para dizer que foi muito pior do que o general Eanes pensa, mas muito melhor do que os seus adversários julgam.
Ecstasy – Uma droga qualquer que, por nunca a termos experimentado, não podemos descrever.
Ecu – Plebeísmo de Euro.
E-Mail – Correio electrónico. Algo que, dispensando o carteiro, tornou, em contrapartida, o endereço muito mais complicado.
Entrosado – Do Léxico de Gabriel Alves. Diz-se quando uma equipa acerta os passes.
Euro – Uma moeda que, por haver poucas ou ser mesmo única, faz com que os aumentos de ordenados tenham de ser sempre muito baixos ou nulos.
Eurocrata – Um burocrata europeu, embora, por analogia, um burocrata nacional devesse ser um naciocrata; portucrata, se fosse português; italocrata, se fosse italiano; grecocrata, se fosse grego; anglocrata, se fosse britânico; e plutocrata, se fosse de Plutão.
Europeísta – Adepto da União Europeia, salvo se for funcionário em Bruxelas. Nesse caso é eurocrata.
Fast-food – Comida rápida da classe das rações militares etíopes.
Fax – Aparelho que surpreendentemente tira fotocópias a milhares de quilómetros de distância (por exemplo, de Macau para Lisboa) e que, apesar de tudo, já está desactualizado. Se fosse agora, o caso Melancia seria o «Caso do E-mail de Macau».
Forcing – Uma insistência moderna.
Fractais – Ah, bom! Se conseguíssemos explicar o que era isto, o ensino em Portugal estaria muito melhor. Mas tem que ver com a geometria, a teoria do caos e os novos desenvolvimentos da física. Nada de que precise saber, a menos que trabalhe no ramo. Mas, caso trabalhe no ramo e não saiba, o nosso conselho é que mude de emprego.
Gay – Ainda bem que a palavra apareceu, porque nunca há a certeza de quantos ss tem homossexual.
Glasnost – Transparência em russo. Palavra utilizada por Gorbachov para iludir a questão essencial: a de que há coisas que é preferível não ver.
Globalização – Passe de mágica através do qual uma camisa feita por uma criança ranhosa e infeliz do Bangladesh passa a ser um objecto de moda e de culto na civilização ocidental.
Gonçalvismo – Período da nossa história correspondente aos cerca de 23 minutos que demorou o discurso do ex-primeiro-ministro Vasco Gonçalves em Almada.
Hacker – Virtualmente, um pirata. Realmente, um pirata.
Hipermercado – Local onde o povo vai às compras e o engº. Belmiro às vendas.
Home page – Uma página no ciberespaço que tem como vantagem não ter de se amarrotar antes de se deitar fora.
Hooliganismo – Bando de fanáticos de bebidas alcoólicas, vulgo cerveja, que insiste em ir ao futebol.
Hardware – O problema que tem o nosso computador quando o técnico que chamamos só sabe de software.
Hit – O número de toques que levamos na nossa home-page (honni soit qui mal y pense).
Implementação – A fase em que estão as leis que nunca foram aplicadas.
Instrumentalização – A face contemporânea do caciquismo.
Interface – Ainda não havia EXPRESSO e já no metro de Entrecampos havia correspondência com os eléctricos para o Lumiar. Só que nessa altura, incompreensivelmente, ninguém lhe chamava isto.
Internet – Uma forma de navegar ou surfar em que o único risco é ficar afogado em contas de telefone.
Jacuzzi – A banheira das supertias. Não confundir com o J'Accuse de Zola.
Karaoke – Instrumento de tortura utilizado em bares para chamar clientes ou em casas particulares para afastar amigos.
Lambada – Dança contorcionista que corre o risco de acabar mal.
Link – Uma ligação real entre dois locais que só virtualmente existem.
Media – Tempo do verbo medir, ou o que é que pensavam? Claro que também pode significar comunicação social, mas nesse caso fica abaixo da média.
Mediático – Um tipo que tem como virtude ser amigo de uma série de jornalistas.
Mercado Único – Processo através do qual comemos a fruta espanhola e deitamos fora a nossa.
Microndas – Por incrível que pareça, é assim que se escreve o nome do electrodoméstico onde se aquece o leite e a sopa.
Modem – Pequeno aparelho cuja posse distingue os inforricos dos infopobres.
MTV – Canal de TV internacional que se dedica a concorrer com a rádio.
Multiculturalismo – A explicação que tínhamos para esta palavra não foi publicada por ser politicamente incorrecta.
Multimédia – Aparelho muito em voga na classe média-alta, e que substitui as idas às bibliotecas, aos museus e às montras de Amesterdão.
Narcotráfico – Negócio altamente rentável, apesar de matar os clientes.
OPA – Habilidade bolsista.
OPV – Outra habilidade bolsista.
Outsorcing – Forma encontrada pelas empresas modernas para não terem de contratar pessoal menor.
Overdose – Resultado trágico para quem deu dinheiro de mais a ganhar ao traficante.
Ozono – A camada mais célebre da Terra, que contém o buraco mais ameaçador do mundo.
PALOP – Conjunto de países africanos que falam a nossa língua mas raramente nos ouvem.
Parabólica – Uma antena que convém vender quando se adere à TV-Cabo.
Parapente – Um pára-quedas de luxo, menos rápido mas com direcção assistida, airbag e ar condicionado.
Parquímetro – Um curioso aparelho que não nos permite ficar descansados quando, por acaso, arrumamos o carro num local onde é permitido estacionar.
Passe social – Um pequeno cartão que permite o acesso de qualquer um aos apertos, maus cheiros e pisadelas dos transportes públicos.
PC(1) – Abreviatura de Partido Comunista. Mas não é politicamente correcto chamar PC a um comunista.
PC(2) – Abreviatura de politicamente correcto. Uma forma (ou formo) de expressão peculiar que faz com que os (as) discursos (discursas) comecem sempre por «portugueses e portuguesas».
PC(3) – Abreviatura de computador pessoal em inglês e único PC que verdadeiramente sobreviveu aos novos tempos. Assim se vê a força do BG (Bill Gates).
Perestroika – Em russo significa reestruturação. Nas outras línguas quer dizer o fim do regime comunista.
Pimba – Uma forma de arte popular de mau-gosto que, infelizmente, apesar de gente culta como nós a detestar, não nos sai da cabeça.
Pins – Uns alfinetes ridículos que se usam na lapela. Exclui-se desta classificação os que têm emblemas de partidos, de clubes desportivos, do Lions, do Rotary, ou aqueles que são resultado da imposição de uma comenda por Sexa o Presidente da República.
Pivot – Tanto se diz de um dente postiço como de um apresentador de televisão. No geral, ambos nos provocam alguma incomodidade e nos fazem abrir a boca.
PP – Partido político que, tendo substituído o CDS, se mantém no entanto fiel à tradição iniciada por aquele de perder eleições.
PRD – Agremiação política que nasceu para provar que os partidos que tínhamos já chegavam e até nem eram maus.
PREC – Confusão gerada pelo GRANEL dos capitães de Abril. GRANEL é, por sua vez, a abreviatura de Grande Revolução Antifascista Nacional E Libertadora.
Pressing – Palavra apenas utilizada por quem raciocina à pressing.
Printar – Acto teimoso e antiquado que insiste em contrariar as teorias segundo as quais os computadores acabavam com o papel.
PS – Curiosa agremiação política que tem por objectivo dificultar a acção dos seus membros, sempre que estes chegam ao governo.
PSD – Parente próximo do PS (só tem mais um D) que, ao contrário daquele, facilita imenso a vida aos membros do PS que estão no governo.
Rave – Os cavalos também se abatem.
Realidade virtual – Paradoxo inexplicável que nos permite percorrer locais que não existem. Embora quem vá à Pedreira dos Húngaros possa ter a mesma sensação.
Reciclagem – Moderna alquimia que transforma papel de qualidade em folhas de rascunho mais caras.
Reforma agrária – O sonho de uma noite de Verão quente.
Regionalização – Divisão administrativa do País que visa retirar poder a Lisboa para o entregar a não se sabe quem.
Resíduo sólido – Curioso eufemismo moderno que substitui, sem vantagem fonética nem economia de fala, a antiga, sólida e actualmente residual palavra lixo.
Retornado – Cidadão que esteve alguns anos em África e alguns meses no Rossio a lamentar o facto de ter sido obrigado a vir para o Continente.
Sida – A grande aliada da fidelidade conjugal.
Sinergia – Habilidade através da qual um empregado trabalha para várias empresas, apesar de receber salário de uma só delas.
Sintagma – Talvez a única palavra que nos faz ter saudades do tempo em que estudávamos os sujeitos e predicados.
Site – Um sítio que não existe mas aonde toda a gente vai.
Soarismo – Período da nossa história correspondente aos 10 anos de Mário Soares como Presidente da República, aos 15 como líder partidário e aos mais de 70 como homem político, e do qual nunca estaremos suficientemente distanciados para fazer uma análise racional.
Software – O problema que o seu computador tem sempre que não funciona.
Speed – Velocidade ligeiramente inferior à da luz, que marca a diferença entre o speedado e o stressado. Também se diz do estado excepcional em que uma pessoa normal se encontra ao fim de quatro whiskies.
Stress – Excesso de speed... ou de sinergias.
Surf – Uma espécie de bodyboard mais digno, já que o atleta se apresenta na rebentação em pé.
Talk-show – Um programa de televisão no qual o apresentador fala, o público em estúdio bate palmas frenéticas e a família em casa comenta o vestido ou o penteado da assistente.
Telecomando – Um curioso aparelho que nos permite verificar, através do premir de um simples botão, que os programas de televisão são todos iguais.
Telelixo – Excipiente produzido por um canal de TV, normalmente reciclável, mas raramente biodegradável.
Telemóvel – Pequeno aparelho que substitui o telefone e que tem a ousadia de tocar sempre que não deve.
Telenovela – Um drama normalmente com muitos capítulos, quase sempre com alguma intriga e geralmente com pouca inteligência.
Todo-o-terreno – Uma forma elegante de dizer jeep.
Top-less – Uma curiosa forma de demonstrar na praia que, de facto, não há igualdade entre os sexos.
Top-model – Uma rapariga que fica optimamente em top-less.
Totoloto – Um jogo de sociedade fácil, barato e que dá milhões a tipos que não precisam ou que não sabem o que hão-de fazer ao dinheiro.
Tudo bem? – Forma de começar uma conversa para quem não tem nada a dizer. Substituiu com vantagem e economia de palavras a expressão «Ora então muito bons dias».
UCP – Um latifúndio gerido por apoiantes da reforma agrária, destinado à plantação e colheita intensa de uma determinada cultura política liquidada pelos ventos do tempo.
Vaca louca – Designação geral de um animal atacado por uma doença fatal mas impronunciável – encefalopatia espongiforme bovina –, cuja transmissão ao ser humano, não sendo certa, é bastante provável; designação de um escândalo político de encobrimento da mesma doença, o qual, sendo já certo, é bastante reprovável.
Verdes – Denominação de um curioso partido político que tem por hábito (e patriotismo) aliar-se aos vermelhos.
Videocassete – Um pequeno artefacto que nos permite arquivar filmes que nunca teremos tempo para ver.
Videoconferência – Uma forma de o auditório poder adormecer sem o conferencista dar por isso.
Virose – Designação geral de uma doença que o médico não consegue diagnosticar.
Vírus electrónico – Uma epidemia que atinge os computadores e dá um certo jeito para desculpar atrasos ou erros nos trabalhos.
Walkman – Onanismo musical.
Windsurf – Espécie de surf preguiçoso, no qual o atleta não precisa de ir buscar a onda, mas em contrapartida fica à mercê do vento.
Workaholic – Um vício para o qual o Estado ainda não montou centros de desintoxicação.
Workshop – Uma reunião entre especialistas do mesmo ofício ou especialidade, destinada a aprofundar a raiva que uns têm aos outros.
Link – Uma ligação real entre dois locais que só virtualmente existem.
Media – Tempo do verbo medir, ou o que é que pensavam? Claro que também pode significar comunicação social, mas nesse caso fica abaixo da média.
Mediático – Um tipo que tem como virtude ser amigo de uma série de jornalistas.
Mercado Único – Processo através do qual comemos a fruta espanhola e deitamos fora a nossa.
Microndas – Por incrível que pareça, é assim que se escreve o nome do electrodoméstico onde se aquece o leite e a sopa.
Modem – Pequeno aparelho cuja posse distingue os inforricos dos infopobres.
MTV – Canal de TV internacional que se dedica a concorrer com a rádio.
Multiculturalismo – A explicação que tínhamos para esta palavra não foi publicada por ser politicamente incorrecta.
Multimédia – Aparelho muito em voga na classe média-alta, e que substitui as idas às bibliotecas, aos museus e às montras de Amesterdão.
Narcotráfico – Negócio altamente rentável, apesar de matar os clientes.
OPA – Habilidade bolsista.
OPV – Outra habilidade bolsista.
Outsorcing – Forma encontrada pelas empresas modernas para não terem de contratar pessoal menor.
Overdose – Resultado trágico para quem deu dinheiro de mais a ganhar ao traficante.
Ozono – A camada mais célebre da Terra, que contém o buraco mais ameaçador do mundo.
PALOP – Conjunto de países africanos que falam a nossa língua mas raramente nos ouvem.
Parabólica – Uma antena que convém vender quando se adere à TV-Cabo.
Parapente – Um pára-quedas de luxo, menos rápido mas com direcção assistida, airbag e ar condicionado.
Parquímetro – Um curioso aparelho que não nos permite ficar descansados quando, por acaso, arrumamos o carro num local onde é permitido estacionar.
Passe social – Um pequeno cartão que permite o acesso de qualquer um aos apertos, maus cheiros e pisadelas dos transportes públicos.
PC(1) – Abreviatura de Partido Comunista. Mas não é politicamente correcto chamar PC a um comunista.
PC(2) – Abreviatura de politicamente correcto. Uma forma (ou formo) de expressão peculiar que faz com que os (as) discursos (discursas) comecem sempre por «portugueses e portuguesas».
PC(3) – Abreviatura de computador pessoal em inglês e único PC que verdadeiramente sobreviveu aos novos tempos. Assim se vê a força do BG (Bill Gates).
Perestroika – Em russo significa reestruturação. Nas outras línguas quer dizer o fim do regime comunista.
Pimba – Uma forma de arte popular de mau-gosto que, infelizmente, apesar de gente culta como nós a detestar, não nos sai da cabeça.
Pins – Uns alfinetes ridículos que se usam na lapela. Exclui-se desta classificação os que têm emblemas de partidos, de clubes desportivos, do Lions, do Rotary, ou aqueles que são resultado da imposição de uma comenda por Sexa o Presidente da República.
Pivot – Tanto se diz de um dente postiço como de um apresentador de televisão. No geral, ambos nos provocam alguma incomodidade e nos fazem abrir a boca.
PP – Partido político que, tendo substituído o CDS, se mantém no entanto fiel à tradição iniciada por aquele de perder eleições.
PRD – Agremiação política que nasceu para provar que os partidos que tínhamos já chegavam e até nem eram maus.
PREC – Confusão gerada pelo GRANEL dos capitães de Abril. GRANEL é, por sua vez, a abreviatura de Grande Revolução Antifascista Nacional E Libertadora.
Pressing – Palavra apenas utilizada por quem raciocina à pressing.
Printar – Acto teimoso e antiquado que insiste em contrariar as teorias segundo as quais os computadores acabavam com o papel.
PS – Curiosa agremiação política que tem por objectivo dificultar a acção dos seus membros, sempre que estes chegam ao governo.
PSD – Parente próximo do PS (só tem mais um D) que, ao contrário daquele, facilita imenso a vida aos membros do PS que estão no governo.
Rave – Os cavalos também se abatem.
Realidade virtual – Paradoxo inexplicável que nos permite percorrer locais que não existem. Embora quem vá à Pedreira dos Húngaros possa ter a mesma sensação.
Reciclagem – Moderna alquimia que transforma papel de qualidade em folhas de rascunho mais caras.
Reforma agrária – O sonho de uma noite de Verão quente.
Regionalização – Divisão administrativa do País que visa retirar poder a Lisboa para o entregar a não se sabe quem.
Resíduo sólido – Curioso eufemismo moderno que substitui, sem vantagem fonética nem economia de fala, a antiga, sólida e actualmente residual palavra lixo.
Retornado – Cidadão que esteve alguns anos em África e alguns meses no Rossio a lamentar o facto de ter sido obrigado a vir para o Continente.
Sida – A grande aliada da fidelidade conjugal.
Sinergia – Habilidade através da qual um empregado trabalha para várias empresas, apesar de receber salário de uma só delas.
Sintagma – Talvez a única palavra que nos faz ter saudades do tempo em que estudávamos os sujeitos e predicados.
Site – Um sítio que não existe mas aonde toda a gente vai.
Soarismo – Período da nossa história correspondente aos 10 anos de Mário Soares como Presidente da República, aos 15 como líder partidário e aos mais de 70 como homem político, e do qual nunca estaremos suficientemente distanciados para fazer uma análise racional.
Software – O problema que o seu computador tem sempre que não funciona.
Speed – Velocidade ligeiramente inferior à da luz, que marca a diferença entre o speedado e o stressado. Também se diz do estado excepcional em que uma pessoa normal se encontra ao fim de quatro whiskies.
Stress – Excesso de speed... ou de sinergias.
Surf – Uma espécie de bodyboard mais digno, já que o atleta se apresenta na rebentação em pé.
Talk-show – Um programa de televisão no qual o apresentador fala, o público em estúdio bate palmas frenéticas e a família em casa comenta o vestido ou o penteado da assistente.
Telecomando – Um curioso aparelho que nos permite verificar, através do premir de um simples botão, que os programas de televisão são todos iguais.
Telelixo – Excipiente produzido por um canal de TV, normalmente reciclável, mas raramente biodegradável.
Telemóvel – Pequeno aparelho que substitui o telefone e que tem a ousadia de tocar sempre que não deve.
Telenovela – Um drama normalmente com muitos capítulos, quase sempre com alguma intriga e geralmente com pouca inteligência.
Todo-o-terreno – Uma forma elegante de dizer jeep.
Top-less – Uma curiosa forma de demonstrar na praia que, de facto, não há igualdade entre os sexos.
Top-model – Uma rapariga que fica optimamente em top-less.
Totoloto – Um jogo de sociedade fácil, barato e que dá milhões a tipos que não precisam ou que não sabem o que hão-de fazer ao dinheiro.
Tudo bem? – Forma de começar uma conversa para quem não tem nada a dizer. Substituiu com vantagem e economia de palavras a expressão «Ora então muito bons dias».
UCP – Um latifúndio gerido por apoiantes da reforma agrária, destinado à plantação e colheita intensa de uma determinada cultura política liquidada pelos ventos do tempo.
Vaca louca – Designação geral de um animal atacado por uma doença fatal mas impronunciável – encefalopatia espongiforme bovina –, cuja transmissão ao ser humano, não sendo certa, é bastante provável; designação de um escândalo político de encobrimento da mesma doença, o qual, sendo já certo, é bastante reprovável.
Verdes – Denominação de um curioso partido político que tem por hábito (e patriotismo) aliar-se aos vermelhos.
Videocassete – Um pequeno artefacto que nos permite arquivar filmes que nunca teremos tempo para ver.
Videoconferência – Uma forma de o auditório poder adormecer sem o conferencista dar por isso.
Virose – Designação geral de uma doença que o médico não consegue diagnosticar.
Vírus electrónico – Uma epidemia que atinge os computadores e dá um certo jeito para desculpar atrasos ou erros nos trabalhos.
Walkman – Onanismo musical.
Windsurf – Espécie de surf preguiçoso, no qual o atleta não precisa de ir buscar a onda, mas em contrapartida fica à mercê do vento.
Workaholic – Um vício para o qual o Estado ainda não montou centros de desintoxicação.
Workshop – Uma reunião entre especialistas do mesmo ofício ou especialidade, destinada a aprofundar a raiva que uns têm aos outros.
Zapping – Acto pelo qual ficamos a saber que o melhor é desligar a TV.
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